Baunilha

Não é que eu goste de escrever cartas de amor. Acho que passei da idade de ficar escolhendo palavras, floreando confissões, atirando superlativos no papel. Acho que passei da idade de romantizar mãos, dedos, olhos, veias, lábios, pêlos, cicatrizes, suor, saliva, sangue, cheiros. Cheiros. Seu cheiro na minha blusa branca – que eu hesitei tanto, mas tanto em lavar e eu sei que isso soa um pouco estranho, mas bem. Bem. Seu cheiro na minha pele que eu lavei por costume, obrigação social e um pouco de, admito, vício de limpeza. Eu queria o seu cheiro em mim todo dia. Você podia espalhá-lo pela minha casa, assim, como quem não quer nada. Marcar seu território nos meus travesseiros, se a ideia for boa. Pode também escrever recadinhos na minha geladeira, pregar papéis no quadro de cortiça que fica na sala, usar todos os meus incensos, quebrar um ou outro copo, roubar minhas canetas, tomar minhas Aspirinas, beber dos meus vinhos baratos, comer os doces do armário. Pode baixar arquivos duvidosos no meu computador, se você quiser, só cuidado por favor com os programas que se instalam sozinhos. Não é que eu goste de escrever quando o coração falha uma batida e minha cabeça começa a criar situações e situações, mas não sei, acho que não me importaria se você me acordasse com um despertador histérico, roubasse o meu cobertor, sujasse meu quarto com suas botas meio enlameadas, desorganizasse meus livros, quebrasse todas as minhas concepções de vida, me fizesse rir escandalosamente às duas da madrugada, me obrigasse a assistir um filme desses sem pé nem cabeça com atores de países sem vogais. Acho que gostaria da sua cara amassada numa manhã de segunda-feira. Acho que gostaria da sua cara em qualquer dia da semana. Não posso garantir que vou gostar da sua cara pra sempre, mas por enquanto a ideia de vê-la bem de perto me apetece muito. Eu gosto dos seus poros. Eu gosto das suas marcas de expressão. Eu gosto do rubor da sua fronte quando você fala alguma coisa da qual se arrepende. Me faz bem a sua cara de pau. Me faz bem a sua falta de jeito. Fique à vontade para fumar na minha cozinha, rabiscar meus caderninhos, sujar um pouco (não muito) de louça. Apareça de surpresa, que hoje eu vesti a minha melhor roupa casual para fingir que não tinha uma certa esperança de que você resolvesse se desviar do caminho certo e aparecer aqui pra me fazer dizer nossa, como você é imprevisível e maravilhosamente adorável nessa imprevisibilidade. Adoro o seu cheiro. Passei da idade de fingir que não.

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