Um recado insone para a Alice

Alice,

A vida do lado de cá do arco-íris não é o que nós duas imaginamos que fosse. Anote na sua caderneta quando você tiver esse tempo, por favor, que as pessoas são capazes de atrocidades inimagináveis por uns minutos a mais de prazer, por umas notinhas recheando os bolsos e, quem diria, por elogios rasgados. Ninguém aqui fora se parece com você e eu sinto falta de quando a sua meninice era meu maior referencial e eu pensava que puxa, quando eu chutar essa porta e me enfiar no primeiro ônibus com destino a São Paulo, eu vou conhecer gente igualzinha à ela. Muitas, muitas pessoas com a mesma sede de conhecimento, a mesma volúpia antropofágica, a mesma habilidade de criar neologismos apaixonantes. Eu errei, Alice. Eu quis encontrar uma casa porque achava que tudo iria mudar quando isso acontecesse, mas eu errei. Eu não tenho casa. Sabe que eu me pergunto se já tive? Essa minha cabeça mora longe demais. Parece que tem algum bicho dentro de mim que me torna infinitamente incapaz de fixar raízes. Como eu queria te explicar o quanto isso me magoa. Eu me sinto mal por não conseguir querer uma vida simples, criar patinhos, viver fora da cidade grande e longe dessas ruas cheias de gente angustiada, de lixo não recolhido, de histórias tristes, de pedintes que eu não posso salvar. Eu tenho um fascínio esquisito por isso tudo, mas tenho me sentido muito culpada por essa inclinação bizarra ao que está fora de lugar. O caos está instalado aqui. Nunca vi um lugar tão sem alma. Nunca vi gente tão disposta a matar e morrer para conseguir entrar num vagão abarrotado e chegar em casa uns dez minutos mais cedo e sentar no sofá e se fartar de comida congelada. Eu tenho comido muito mal também. Sinto dizer isso, mas desisti totalmente de tentar ficar gostosa (lembro de você falando isso sempre). Não vai dar. Não quero abrir mão das minhas fontes de alívio e alegria imediatos. Sabe quando você simplesmente não consegue se importar mais? Sinto que meu corpo começa, pouco a pouco (mas a velocidade tem aumentado), a se desfazer. Faz 22 anos que eu estou morrendo, Alice, e eu sinto saudade da sua disposição inacreditável. Preciso voltar a ser como você, criança de tudo. Melancólica, pois sim, mas inegavelmente viva. Acho que achei a palavra: viva. Tudo anuncia a morte no meio do cinza. Tudo parece um prelúdio do fim. Eu tenho tido visões de coisas que eu não sei se já aconteceram, se vão acontecer ou se são criações aleatórias advindas de um pânico monstruoso do amanhã (ou de ontem; não sei, não sei mesmo). Tenho tido a impressão de que não estou sozinha. Tenho pedido clareza às entidades de boa vontade, àquelas que ainda não ficaram de saco cheio de tanta dúvida. Você sabe, eu fico me perguntando se seria diferente se eu tivesse nascido em outra época, mais ou menos como os meus pais. No meio de um ambiente de crise. No meio de uma situação de instabilidade tremenda. Qualquer coisa poderia deflagrar uma guerra nuclear, qualquer coisa poderia fazer você levar um choque na uretra, qualquer coisa te levaria direto para um pau de arara e ainda assim eu vejo fotos dos meus avós, das minhas tias, da minha mãe e estão todos gargalhando e satisfeitos nas suas roupas de cintura alta e cabelos volumosos. Posso estar falando bobagem e romantizando demais, mas sabe o que me parece? Naquela época, apavorados com a possibilidade de morrerem a qualquer minuto, de serem retirados de seus núcleos familiares e torturados ou algo que o valha, todos se uniam. Todos buscavam apoio, afeto, carinho uns nos outros. Tudo podia acabar no aperto de um botão. Minha geração é fresca até dizer chega. Misturamos vodca, anticoncepcional, Rivotril e Coca-cola e achamos sinceramente que não há nada de errado nisso. Misturamos tudo o que parece ser entorpecente de uma maneira não-tão-condenável-assim-veja-bem em busca do nirvana, desesperados para entrarmos em comunhão uns com os outros no pensamento. Pff. Porra nenhuma. Ninguém quer amar ninguém. Ninguém quer se unir a ninguém. Todo mundo está preocupado demais em chorar miséria pra si mesmo e pintar um quadro de sofredor solitário. É isso que eu tenho pensado, Alice, e é isso que eu tenho sentido. Talvez eu também goste muito da ideia de ser uma sofredora solitária, uma prisioneira de mim mesma. Talvez eu seja uma puta de uma covarde, também – essa é uma opção bastante plausível, embora não muito fácil de engolir. Ninguém quer admitir pra si mesmo, que dirá pros outros, que fica estagnado porque é confortável abraçar, cheirar, lamber essa insatisfação do que efetivamente fazer alguma coisa sobre ela. Não tem problema, a arte nunca vem da felicidade – mas toda a arte que se produz, depois de um tempo, parece dizer a mesma coisa. Não tem sentido em nada, nada vira nada, tudo vira bosta. Isso é uma música, não é? Tem alguma coisa parecida com isso em uma música que eu conheço, pelo menos. Enfim. O que importa é que é assim: tudo vira um grande emaranhado de tentativas de apoteose que falharam. Ninguém, Alice, repito, ninguém quer amar ninguém. Ninguém quer sentir nada. Todo mundo quer é fingir que sente e cantar os sentimentos que aprendeu a dizer que tem. E cantar sozinho, cantar pra parede, cantar pra enaltecer esse niilismo porco que a gente aprendeu a amar tanto. Não consigo dormir aqui. A toca do coelho não tinha escadas. Te espero para me jogar a corda. Lembra daquela música? Me tire dessa jaula. Me promete que o mundo é mais, Alice. Me arranja uma casa em que eu me sinta em casa. Você sabe, menina, que não estou falando de nada concreto. Não de jardins, apartamentos, duplex na Avenida Paulista. Me arranja uma casa. Eu de repente não preciso de mais nada. Não esquece de tomar seus remédios. Enquanto isso, eu tento voltar pelo caminho que vim. A estradinha de tijolos não é mais amarela. Mentiram pra gente sobre isso também. Não há lugar como a nossa casa? Um beijo, Alice, oxalá que estejamos bem. Bem em breve, te vejo de novo.

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