Colagens

Tenho procurado palavras novas porque cansei de todos os vocábulos que sempre usei. Penso em orações, períodos, parágrafos, páginas e páginas de adjetivos e tudo me parece uma compilação de coisas que eu já disse, já imaginei, já atirei na parede, nos rostos alheios, na minha própria cara inchada no espelho. Tudo o que eu penso não vem de mim. É uma eterna cópia das reflexões de outrem, um dejà-vu constrangedor. Todos os meus desejos de mudar o mundo vieram quarenta, cinquenta anos antes de mim. Todos os meus discursos de paz, amor e liberdade sexual antecedem minha concepção em um número muitíssimo relevante de décadas. Percebi que olho para os prédios enormes e para as pessoas que andam entorpecidas ladeira acima, ladeira abaixo e penso em autores que perceberam arranha-céus e olhos perdidos e comportamentos rudes e indiferenças e escreveram livros e teses sociologicamente relevantes muito antes de eu descobrir o que “relevantes” significava. Acho que a minha melancolia deve ter surgido de algum filme que me impactou deveras quando eu era mais nova (alguma dessas adaptações de livros norte-americanos – penso então no Chuck Palahniuk e nas vezes em que o parafraseei porque sozinha não diria nada digno de ser dito em voz alta). Eu sou um mural cheio de recortes e colagens sobrepostas. Não me fiz, mas fui feita. Não há nada em mim que seja minimamente meu.

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