Estrangeirismo

Foi bonito. Foi bonito e um pouco desajeitado (bem, na verdade, foi muito desajeitado mesmo, de uma forma quase constrangedora, e meus amigos me lembraram disso algumas vezes, gargalhando, desde então). Nunca ninguém me olhou com tanta curiosidade e eu juro que me lembrei de tantas, tantas músicas que fico um pouco envergonhada, mas o que importa é que você me olhava com ar de quem queria entender, de quem realmente estava gostando das minhas brincadeiras meio ébrias na madrugada carioca e fazia frio enquanto você fumava o seu cigarro comigo do seu lado, olhando de perto, perguntando silenciosamente se eu poderia chegar mais e mais perto porque eu tinha certeza de que você cheiraria muito bem de uma distância relativamente bastante curta. Você me desregulou. Você quebrou meus pensamentos encadeados com um sorriso de canto, um sorriso estrangeiro, e eu gostaria de ter sentado numa sala com você por algumas horas a mais e ter te ouvido falar sobre a sua terra (que me fascina desde sempre, eu sei lá o motivo), sobre os seus passeios, sobre as suas andanças em continentes em que eu não sei se pisarei um dia, sobre os seus desejos, sobre as suas viagens, sobre o que te levou a falar de forma tão rouca e tímida, sobre como você aprendeu a tirar a concentração de todos em uma sala assim que você pisa nela. Que estranho. Foi a primeira vez que conheci alguém tão naturalmente devastador (e com ares de quem não se importa, de quem acordou assim).
Hoje acordei sozinha e com frio. Abri a janela e imaginei que via o mar, de longe, batendo preguiçosamente na pedra do Arpoador. Fechei meus olhos e o som das ondas virou o ruído desagradavelmente alto de turbinas de avião. Quilômetros e quilômetros, milhas e milhas. Eu te desejo amor e sorte nessa vida de, como você descreveu, “gente chata”. Na minha cabeça, nada disso parece chato, mas o que é que eu sei, não é mesmo? Essas moças sonhadoras e suas expectativas do além mar.
(fica aqui o segredo de que não seria nada mal te ouvir tentar me convencer de coisas nas quais eu nunca vou acreditar – assim, como quem não quer nada, enquanto você fuma seu cigarro e seus olhos brilham pelas luzes neon)

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Um comentário em “Estrangeirismo”

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