Segunda-feira

Prometi que não te escreveria mais uma linha sequer (uma vez que um, você nunca lê qualquer coisa que eu escreva, dois, você não dá a mínima e três, eu juro, juro que mereço mais), mas não me parece má ideia exercitar meu palavreado de quinta. Orgias de pensamentos nessa minha cabeça confusa e você emergindo entre os braços e pernas. Fiz um café meio sem gosto para ver a vida começar do lado de fora da minha janela e, sentada na minha cama que me parece contraditoriamente pequena demais e grande mais para uma pessoa só, te imaginei descendo do outro lado da calçada e procurando o meu apartamento no meio de todas as centenas e centenas de apartamentos iguais ao meu. Me imaginei acenando da sacada com a minha melhor cara de devassa mal dormida, dedos meio cobertos pelo meu casaco que é grande demais pra alguém com a minha estrutura corporal e nesse sonho lúcido (meio induzido por uma mistura irresistível de estimulantes e muita raiva guardada) você gargalhou tão alto que uma moça de cabelo de cama abriu a janela e te xingou ruidosamente e você só atravessou e eu podia ter aberto o portão, mas não abri porque queria ouvir a sua voz no interfone. Então você subiu os cinco andares e me perguntou como eu consigo viver assim e eu te coloquei pra dentro e te servi basicamente nada porque o mês está chegando no final, você sabe e você me corrigiu e disse que não, cara, o mês está praticamente na metade, com o que é que você anda gastando tanto dinheiro heim e eu respondi que não faz mal de vez em quando ir ao supermercado e perceber que meia dúzia de ovos mais um pacote de pão mais umas caixinhas de creme de leite mais umas frivolidades dão coisa de noventa e poucos reais e isso é realmente absurdo, por favor, vamos fazer a revolução porque eu tô realmente estupidamente cansada de pagar pão por quilo (isso é obsceno) e comer verdura podre porque tudo o que é bom é exportado e pagar o quádruplo por qualquer coisa que seja fatiada. E você ri das bobeiras todas e elogia meu café aguado e me pergunta se pode dormir na minha cama, paradoxalmente gigante e miúda, e eu te digo que ela é a melhor cama dessa cidade e que vai ficar ainda melhor quando você se encaixar nela, debaixo do meu cobertor azul que eu acho tão gostoso e que combina demais com a cor das suas madeixas (e essa palavra é tão engraçada e eu gosto de usá-la só porque ela é assim, cômica) e eu prometo que vou sair de fininho umas três horas depois e comprar comida superfaturada só para ter o prazer de te fazer algo comestível e gostoso e te acordar com cheiro de manteiga derretida e roçar meu rosto no seu rosto enquanto você acorda e diz que olha, não foi má ideia vir de tão longe só pra te ver satisfeita de me engordar. E eu vou me sentar ao seu lado, já adequadamente vestida e com os cabelos repartidos e vou começar a jogar na sua cara uma porrada de coisas como: você nunca me perguntou, mas a minha banda preferida é The Smiths. Não que faça qualquer diferença, mas eu gosto de música dos anos oitenta, de sapatos de salto alto, de mulheres que fazem política, de gente subversiva, de coreografias absurdas, de conversar até o dia raiar. Não que você tenha, em qualquer momento no qual ficamos juntos, me perguntado qual é a minha cor favorita, mas taí, é azul, mas eu também gosto de vermelho e também gosto de preto e acho que fico bem de vermelho, então se quiser me dar um presente um dia desses já sabe. Você nunca me deixou realmente falar de mim, então digo mais: gosto muito de cozinhar e gosto ainda mais de cozinhar para quem eu gosto, mas só quebro um galho. Não tenho técnica. Jogo tudo na panela e acendo uma vela pro meu orixá pra ele me dar uma ajuda. Às vezes funciona. Queria te ganhar pelo estômago já que te ganhar pelo coração é impossível. Adoro jogos de azar. Tenho um gosto peculiar por jogos de cartas, queria mesmo era competir em Las Vegas e ganhar um prêmio inacreditável em uma mesa cercada de homens pelo simples prazer de sair gargalhando e cantando The Winner Takes it All, do ABBA. Gosto de fazer piada no meio das coisas sérias. Contei muitas piadas nas últimas sentenças, mas tem muita verdade aí no meio. Não vou te dizer quais são as verdades, você que confie no seu desconfiômetro. Eu brinco muito porque preciso dar um descanso para o meu cérebro. Sorrio muito porque um sorriso faz cessarem quaisquer perguntas um pouco mais profundas. Eu teria te deixado me perguntar muitas questões complicadas, teria te contado sem vergonha alguma sobre a minha obsessão pelo universo e sobre o meu romantismo quase visceral e sobre o quanto eu adoro olhar a vida começar da minha janela. Eu teria te dito tanta coisa – mas não mais. Não confio em você para dizer muito além de bom dia, boa tarde e eu te conto tanto olhando no seu olho e você não entende uma vírgula porque não te desperta qualquer curiosidade qualquer coisa que não venha do seu âmago, da sua persona sofredora. Bom dia, aliás, que hoje é segunda-feira. E saia hipoteticamente da minha cama, que de repente meu quarto me parece perfeito para uma solidão só.

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