Teatrar

[As luzes acendem em tons de azul. A ATRIZ está sentada no centro do palco, no chão. É importante que esteja despenteada e com uma malha cor de pele no corpo inteiro]

ATRIZ
Quando eu digo que sinto dores em partes estranhas do meu corpo, não estou mentindo. Eu não conseguiria te descrever mesmo se eu tentasse – como é que eu te diria isso, meu Deus? Tenho dores em articulações que não sei se têm nome. Devem ter. Todas têm, não é verdade? Tenho dores que agem de dentro pra fora e se refletem no jeito como eu ando, no jeito como eu olho, nas coisas que eu digo.

[ATRIZ tem dedos trêmulos. Coloca o braço atrás de si e encontra um maço de cigarros. Acende um e respira fundo. Olha para o teto]

ATRIZ
Me disseram que eu não posso fumar aqui, que tem alarmes que disparam com qualquer fumacinha. Vamos tentar? Não ligo de me molhar um pouco.

[ATRIZ fuma em silêncio, joelhos contra o peito. Nesse momento, uma música instrumental se faz presente]

ATRIZ
Eu tenho essas coisas inomináveis desde que me entendo por gente. Pode chamar de melancolia de classe média, se quiser. Aceito qualquer explicação, mesmo aquelas que me emputecem. Vai que vocês estão certos. O ponto de tudo, seja qual for a razão ou significado desse buraco que fica cantando no meu peito, ele só abranda nesses momentos em que eu finjo que é tudo uma cena e fumo com o queixo erguido, assim.

[ATRIZ vira o rosto, enfatizando seu perfil. Coloca a mão no maxilar, faz cara de pouco caso, ergue as sobrancelhas. Não faz questão de parecer natural. Não acredita no conceito de natural, de qualquer jeito]

ATRIZ
Não fico bem com esses ares de diva do cinema francês? Luz e maquiagem. Não tenho nada de francesa, não tenho nada de qualquer coisa dessas que servem pra cinema europeu. A luz e a maquiagem me cobrem de expectativa, criam uma versão nova de mim que não tem poros, não tem falhas. Pareço tão outra assim de longe. Você da primeira fila me vê um pouco melhor, mas para quem está na última, olha que bem pareço eu. Nesses momentos não me dói tanto, sabe?

[ATRIZ levanta devagar. As luzes ficam um pouco mais pálidas enquanto ela arruma o cabelo, passa os dedos debaixo dos olhos para retirar o excesso da maquiagem que escorreu, funga. Joga o cigarro no chão e pisa nele com os pés que estão cobertos por sapatilhas que parecem sapatilhas de bailarina. Ela nunca foi bailarina. Não tem corpo de bailarina nem pés de bailarina. Sempre quis ser]

ATRIZ
Nesses momentos em que eu estou aqui, nesse palco italiano que é mais real pra mim do que qualquer outro instante de realidade fora dessa sala acústica e meio mofada, diga-se de passagem, não dói. Quer dizer, dói muito, absurdamente, de um jeito que parece que eu vou engasgar nas palavras que eu não disse, nas mentiras que eu fingi pra mim que precisava contar, nos rompantes de sinceridade que nunca deveriam ter saído, no tesão que eu não matei, no amor que eu enfiei entre as minhas costelas e é por isso que eu sinto pontadas que me tiram do rumo – dói muito, mas nessa hora eu finjo que não é nada meu e sou tão eu e tão minha que até gosto de mim. Que até me acho, não sei, confusa, perdida, adorável na minha loucura.

[ATRIZ rasga a malha e fica completamente nua. Isso não estava no roteiro, mas ela não dá a mínima. O diretor tem um pequeno ataque cardíaco na coxia da direita]

ATRIZ
Nesse corpo que eu empresto pra tantas moças, pra tantos moços, e quando eu digo palavras decoradas, meu Deus, como eu me encontro. Como é preciso pra mim gargalhar e chorar e me deixar ser estapeada, molestada, humilhada, amada vulgarmente, amada em rimas, odiada com paixão nesse espacinho de, não sei, sete por sete? Oito por oito? Não sei o tamanho desse palquinho, mas ele é tão pequeno e tão grande e me abriga como a casa que eu nunca tive. Eu olho pra vocês aí debaixo e todos vocês são a casa que eu nunca tive. Eu sinto um amor avassalador por cada rosto que me olha em choque ou nojo e eu aceito todos os sentimentos que vocês quiserem me dar porque são verdadeiros, são orgânicos. Olhem pra cá, não desviem os olhos não. Eu tenho esse amor que me come as estranhas, que faz suco das minhas vísceras e eu quero dividir, dar tudo dele pra quem me olha sem saber se me olha ou se olha pra qualquer personagem que nunca vai morrer.

[ATRIZ caminha até a ponta do palco. Senta-se ali. Olha ao redor. O diretor foi embora, dizem, e cogitam apagar as luzes]

ATRIZ
Tudo lá fora é um mero rascunho da vida aqui em cima. Aqui eu sou de Cleópatra à Santa Joana dos Matadouros. Aqui eu sou Hamlet, eu sou a puta que pariu qualquer puta famosa da história. Sabe que qualquer ator adora uma história dramática, certo? Sabe que qualquer ator tem empatia por putas, subversivos, perdidos, gente sem sorte de todo o tipo. E quando eu estou aqui e eu olho pra vocês e vocês olham pra mim, eu sou todas as mulheres e todos os homens que vieram antes de mim e meu sentimento é esse. É infinito. É bonito. E dói tanto que eu sinto que poderia vomitar tudo, mas é uma dor de reconhecimento, uma dor de achar o caminho de volta. Uma dor que me segura quando eu preciso sair daqui e pisar no asfalto que não é palco. Só é asfalto.

[ATRIZ abaixa a cabeça, cobre o rosto. A mão na fronte não deixa o público saber se chora ou se finge que chora. BLACK OUT]

Anúncios

2 comentários em “Teatrar”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s