O homem no metrô

Onze e quarenta da noite de sexta-feira. Verifico o relógio a cada dois minutos para ter certeza de que não cometi um erro e não serei deixada em alguma estação de metrô deserta por ter esquecido que a locomotiva do país funciona em horários específicos. Ao meu redor, uma ou duas senhorinhas que olham por detrás de óculos de aros grossos para um grupo de adolescentes que fala, fala, fala, lafa, lafa, lufa, late, não cala, um homem olha provocativamente para uma moça que o encara com ares de que vai arrancar um canivete do bolso e lhe cortar a garganta e algumas pessoas pessoam silenciosas, respirando tão devagar que eu poderia achar que não estavam respirando.
Surge então um homem cuja cabeça bate quase no teto. Levanto os olhos para observá-lo, curiosa de sua figura. Tem um terno preto bem cortado, reto, que valoriza a finura de suas pernas. O paletó também é negro, bem como a blusa e a gravata. Usa um chapéu que alcança as sobrancelhas e óculos de lentes que não são bem claras e não são bem escuras. Tem uma cicatriz na fronte e uma bandagem branca debaixo do olho direito. Na mão ossuda, tem uma tatuagem que parece em alto relevo de um triângulo, um olho e uma cobra.
Ele me dá medo, esse homem estranho. Estala o pescoço devagar, quase em câmera lenta, e seus olhos que são puro breu analisam o trem como quem escolhe uma vítima ou simplesmente procura um objeto curioso para gastar o tempo enquanto não chega na estação certa. Analiso-o, cautelosa, e percebo que tem veias que saltam, unhas manchadas e rabiscos (que devem ter sido tatuagens, um dia desses) nas falanges dos dedos. Tem também um lenço amarrado na bolsa de couro que carrega. Vejo um broche e um pentagrama invertido no dito cujo. Pisco e ergo as sobrancelhas e me vêem à cabeça mil e um filmes demoníacos, mil e um atores que viveram o capeta e eu penso em dizer que, de todos, o Al Pacino sempre será o meu favorito. Desvio o olhar e miro os meus sapatos.
Sapatos lustrados se aproximam de repente. Não ouso olhar para cima. Tenho a impressão de que me vejo no polimento exagerado dos pés do homem que pode ser Lúcifer e pode ser um José ninguém que gosta de assustar gente sozinha no metrô e estou com medo. Não nego. Artur Alvim chega depressa. Desvio do rapaz sem saber se ele me segue. Olho por cima do ombro. O trem se vai. Não tenho certeza do que acabou de acontecer. Me vou também. Não me desfaço do ocorrido – as cobras vermelhas no braço dele serpenteiam ameaçadoras no meu cérebro inquieto.

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3 comentários em “O homem no metrô”

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