Atrás da porta

Para a Sam, que eu só desejo que fique bem

 

Ela parada diante das janelas gigantes, braço direito debaixo dos seios desnudos, braço esquerdo dobrado, cigarro perto do maxilar anguloso. Fungou e controlou o ímpeto estranho de choramingar. Atrás dela, deitado na cama, em posição de crucificado, ele nem se mexeu. Manteve os olhos fixos no teto branco do quarto dela e pensou em alguma coisa inteligente para dizer. Não conseguiu. Decidiu contar piada:

– Vai ficar fazendo show para São Paulo inteira, aí da janela?

– Não para São Paulo inteira, só para uns bêbados perdidos na São João.

Ficaram em silêncio, os dois. No rádio cansado, do outro lado do quarto, aquela voz rouca soava baixinha. Ela riu e tragou mais uma vez, a garganta em fogo. 

– Sabe que a gente transou ouvindo The Smiths?

Ela gargalhou e balançou a cabeça. Não teve força pra dizer uma palavra a mais. Terminou o cigarro, atirou-o pelo vidro aberto. Esticou o braço e capturou o casaqueto vermelho que havia dei

xado sobre a poltrona. Vestiu a peça vagarosamente; caminhou pelo cômodo. Abriu uma gaveta, mexeu nas embalagens quase vazias de mil coisas que não usava, acendeu um incenso e colocou-o sobre a escrivaninha. O cheiro, as reminiscências – e de repente o quarto rodava ao redor dela, numa tentativa de asfixia.

– Você já tinha feito isso antes?

Ele continuava a falar. Ela bufou, passou a língua pelos lábios rachados, voltou os olhos para os quadros na parede. Cobriu-se como pôde com o casaco, subitamente envergonhada, subitamente tímida. Ele se ajeitou na cama, tomou uma respiração profunda e se sentou. Passou a mão grande pelo pescoço marcado, fez careta. Ela leu a mente dele e sentiu uma raiva desproporcional ao seu humor habitual. Aquele homem – homem não, corrigiu mentalmente, esse molequinho – a transformava numa estranha.

– Sabe que eu gosto muito desse quadro? Onde foi que você comprou?

– Num bazar na descida da Augusta. 

– Naquele onde tem uns vinis muito antigos?

– Todos os lugares da Augusta vendem vinis antigos.

– Nem todos.

Ela tossiu e engoliu em seco. Afagou os braços cobertos pela malha colorida, admirou os desenhos em vermelho sangue na roupa. Fez mil associações dramáticas na cabeça. Detestou-se imediatamente pela sua necessidade de transformar tudo em prosa e poesia, em esmigalhar matéria em versinhos bobos, em colocações apaixonadas. Pobre dela apaixonada, boba e tentando se encaixar. Quanta dificuldade de sentir. Podia ser tão leve, tão leve e não era e —

– Você sabe, eu acho que eu preciso ir.

Ela piscou algumas vezes antes de entender. Concordou. Fez que olhava um relógio no pulso. Abriu o armário, agarrou umas calças justas, encaixou-se dentro delas. O rapaz se pôs de pé e se vestiu em silêncio, olhos fixos na própria imagem no espelho gigante na parede. Virou o rosto e analisou melhor o hematoma no pescoço. Ela o desafiou a dizer qualquer coisa com o olhar, mas ele não se atreveu.

– Você tem algo pra fazer essa semana?

– Tenho.

– Me liga, qualquer coisa.

– Ligo.

Caminharam até a sala. Ela abriu a porta depressa e afastou-se da passagem. Esperou que ele saísse. Em vez de perceber o incômodo de toda a situação (na verdade, fingindo bem a sua impassividade cotidiana), ele enroscou a cintura nua dela por debaixo do casaco e beijou-a com lábios sôfregos. Ela fechou os olhos e quis não se mexer, mas foi traída pelo bicho que se debatia entre as suas costelas. O coração dela era uma criatura irracional, feroz, facilmente estimulada. O perfume dele. Fungou de novo. Teria que lavar a casa inteira. Acender mais incensos. Defumar a sala com arruda, alecrim, benjoim. Ele se afastou enquanto ela pensava. Roçou os dedos no rosto dela, fez cara de quem se importava. Afastou-se, fechou a porta atrás de si, chamou o elevador. Ela pensou bem, quem sabe. Ouviu o telefone dele tocando ao lado de fora. Prendeu a respiração. Uma risada. A noite acabando do lado de dentro, a noite começando do lado de fora.

Anúncios

1 thought on “Atrás da porta”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s