Peguei o ônibus que levava uma hora e meia só pra poder olhar a cidade e ficar sozinha. Podia ter chegado mais cedo – mas mais cedo para quê, exatamente? Eu tinha os fones nos ouvidos e o coração na mão e cantarolava baixinho, fingindo não ver os olhares curiosos que recebia da mocinha de bota no joelho que estava sentada uns dois bancos adiante. Meus olhos irritados de poluição e aborrecimento lacrimejavam na luz fraquinha do coletivo, meus dedos cogitavam te mandar uma mensagem. Uma mensagem boba, coisa assim: eu olhei pro céu e quis ver estrelas e não tem estrela nesse céu, só tem nuvem e breu. E eu lembro de você sentado do meu lado, encostado em mim, e lembro da satisfação que eu sentia de te ter tão perto e respirando em mim. Olhei pro céu e queria ver alguma coisa lá só pra imaginar que você estava por perto. É só isso. Eu mandaria isso e só isso e depois fugiria pras montanhas porque admitir isso é admitir muita coisa que eu não quero ter que. Eu queria dizer que tem sido difícil. Não especialmente por sua causa, mas você é um agravante. Eu não sei mais quem eu sou. Para te falar a verdade, faz uns meses que eu não tenho ideia de quem é aquela pessoa de olhos fundos que me encara todo dia quando eu acordo. Eu tenho odiado me olhar no espelho. Me encarei no vidro do ônibus hoje e quis quebrar aquela merda com o punho fechado, mas nem força eu tenho pra isso. Olhei pro lado. Funguei. Eu tenho me sentido tão estranha a mim mesma, sabe como é isso? É aquela coisa de não se reconhecer no corpo que tem. De não se sentir no corpo que tem. Eu questiono tanta coisa e eu quero tanta coisa e eu não sou relevante nem pra mim (e meu Deus, como é difícil acertar em qualquer coisa). Eu queria me sentir querida. Eu já me senti assim, mas juro que faz tempo que não consigo. Eu queria colo. Colo assim, sem malícia, sem mão debaixo do vestido. Eu queria poder dormir abraçada com alguém sem que isso implicasse em qualquer coisa além de poder dormir abraçada com alguém. Você disse que não entende se as pessoas não forem claras, então eu estou sendo clara: eu preciso de ajuda. Eu nunca pedi ajuda, mas chegou a hora. Eu preciso de ajuda. Estende a mão pra mim que eu prometo que seguro forte e enlaço nossos dedos e faço meu melhor pra sair daqui. Não me deixa agora.

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