Outra balada para a Alice

Querida Alice,
Cá estou escrevendo de novo. Vou verborragiar daquele jeito de antes. Se isso te põe entediada, eu entendo. Pode parar de ler aqui porque nada deve ser novidade. Aqui vou:
Às vezes, sabe, eu tento esquecer. Sento na cadeira do meu quarto e observo tudo o que é inevitavelmente meu e me compõe e penso que tem muito de você nas coisas que habitam a minha escrivaninha e enchem a minha prateleira. Eu consigo lembrar de muitos dias desde o dia em que você ruidosamente invadiu a minha vida – com suas perninhas afoitas e sua boca antropófaga. Eu consigo lembrar de semanas inteiras, de tardes específicas, de letras de músicas, mas não lembro de muito do que veio antes de você. É assim, eu juro: parece que existe um grande espaço branco que eu preencho com memórias que não são memórias, mas desejos de coisas que eu amaria que fossem memórias, sabe como é? Coisas como uma infância recheada de bonitezas, uns anos de calmaria, uma mente amiga do corpo que a abriga – mas não. Não é meu. Nada disso é. E quando eu me esforço e me travo e vasculho minha cabeça atrás de grandes histórias e vertiginosas experiências, o que me vem são coisas dos últimos poucos anos. Tem um vácuo de dez, quinze, dezessete, dezoito, dezenove anos antes disso. Dezenove! Parece que eu emergi do breu, uma criatura sem passado, alguém que brotou do chão ou caiu de paraquedas na sua sala de estar pedindo pra você me amar e me ensinar sobre a vida e me ajudar, por favor, a entender. Entender tudo. Me ajudar a me enxergar, a me ver, a me quebrar e sofrer pra cacete em cima dos restinhos e me levantar do pó e criar algo que me fizesse bem. Eu queria descobrir quem eu era e eu de fato descobri, mas sabe o quê? Eu queria que você voltasse pra me auxiliar agora, pra me dizer como faço pra desconstruir essa zona. Não sei se você fez bem quando abriu os meus olhos. Parece que me deu muito mais do que eu estava preparada para receber (e mesmo que eu te agradeça e sinta vontade de, não sei, ter um altar pra você dentro do meu armário, admito também que sinto falta vezenquando de ser deliciosamente alienada e consumidora de junk food em quantidades doentias e feliz na minha pequenez) e isso tudo me pesa. Pesa mesmo. Os sons do mundo são altos demais. Às vezes eu não quero o mundo. Eu quero a segurança de braços, um perfume com cheiro de casa, o silêncio entre os edredons. E eu afago a cama e eu sei quem eu sou. Eu sei quem eu sou, não sei? Eu preciso esquecer os últimos anos e começar de novo. Mas daí recomeço do zero. Me sinto sem história, isso faz sentido? É como se eu tivesse que criar outra de mim periodicamente e ir matando as outras. Já posso escrever roteiro de ficção científica? Ai, Alice. Tem pedaços da minha vida antiga espalhados aqui e eu não os reconheço mais. Tem pedaços que foram meus um dia e já devem ter me provocado muito… e hoje não provocam nada. Sabe que eu esqueci o nome daquele cachorro que eu gostava de acariciar pela fresta do portão quando estava indo pra escola? Eu esqueci. Ele foi embora comigo. Eu tenho medo de estar sumindo. Eu sumi pra você? Você não sumiu pra mim. Nas madrugadas em que eu quero dormir, eu imagino outra de mim e vou, pouco a pouco, dissolvendo nos meus pensamentos. É quando você mais me vem à cabeça. Eu quase já não lembro de você. Minhas memórias de você não são memórias, mas desejos de ter memórias suas. Eu te refaço dos seus cacos pra entender quem eu sou. Você se desfaz em gotas. Eu me desfaço em gotas.
Sempre sua.

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