A vida com Jerry

Jerry deitado na cama de barriga para cima, o peito magro subindo e descendo, as costelas delineadas na pele meio bronzeada. Tinha os olhos que não eram nem muito azuis nem muito verdes voltados para o teto e uma expressão meio pensativa, meio distraída. Jerry era um rapaz sem muitas definições. Tudo nele era um grande quase. E eu me atraía por aquelas linhas borradas, encantada pela sua facilidade de mudar de pensamento e ideia e religião e comida preferida e ideologia política e música favorita e tudo mais que ele quisesse.
“Posso te dizer uma coisa boba, Jerry?”
Foram alguns segundos até que ele virasse a cabeça e erguesse as sobrancelhas grossas, mais escuras que os cabelos dele – estes grandes, já passando das linhas dos ombros, meio castanhos e meio loiros. Jerry tinha um ar de quem queria ser rockstar, de quem gostaria da ideia de ser objeto de desejo de uma multidão, mas sempre dava os ombros e dizia que não. Meio que não quero isso, ele comentou uma vez. Não sei bem o que eu quero, mas não é isso. Eu acho. Não sei. Sabe? Pode ser bom, mas talvez seja bem ruim. E eu lembro que ri desesperadamente por muito tempo. Ri até vê-lo puto da vida. Parei, pedi desculpas, ele rolou os olhos. Nunca mais falamos sobre. Não sei se falaremos de novo.
“Pode”
Virei devagar, me ajeitei sobre a cama. Arrumei os cabelos como que para me sentir um pouco mais apresentável. Ele sorriu de canto e se aproximou, esticando o braço e deixando que ele caísse sobre mim e enlaçasse a minha cintura. Nos olhamos.
“Eu olho pra você e parece que a gente já se conhece de outra vida”
Ele riu alto e me trouxe mais para perto. Terminei aninhada em seus braços meio fortes, meio fracos. Ele beijou minha testa num beijo que era meio cândido e meio pervertido e eu acabei rindo também. Ouvi-o resmungar e perguntar qual era a graça, mas não quis dizer nada além. Meu silêncio o estimulou a falar, e ele o fez.
“A gente nunca conhece ninguém de verdade, você sabe, né?”
Jerry, mas que bobagem. Eu te conheço melhor que ninguém. Não tem nada em você que não seja familiar, ainda que incerto – isso faz sentido? Tem alguma coisa em você que é sua e eu gostaria que fosse minha também. Eu gosto do seu perfume meio ácido, meio doce. Eu gosto do seu humor que não é bom e não é ruim nas manhãs em que você tem que sair cedo daqui, pegar a sua motocicleta e cruzar a cidade para ir trabalhar num emprego que não te agrada e nem desagrada. Eu gosto da sua voz que é meio rouca e meio estridente e do seu tom quando você está um pouco inebriado, um pouco agressivo, um pouco empolgado, um pouco faminto. Eu gosto da sua fome (que parece muito com a minha). Eu gosto como você pode ser tanta coisa e não ser nada ao mesmo tempo. Você e as tatuagens que cobrem os seus braços. Você não aparenta a idade que tem. Parece uma alma velha presa num corpo jovem. Como te olhar me dói e me encanta. Como você está longe agora, mesmo quando seu peito encosta no meu e suas mãos afagam o meu cabelo num toque que não é puro, mas não tem luxúria alguma. Você me esconde tanta coisa. Eu só queria que você me dissesse umas verdades, me escandalizasse com a origem das suas ânsias, me contasse todas as coisas horríveis que você fez quando tinha a minha idade, me falasse do mundo filtrado pelos seus sonhos e pelo seu tesão de fazer tudo ao contrário. Eu acho que você está certo. Está me transferindo sua contradição. Eu quero jogar mil palavras na sua cara pra ver o que você faz. Quero abrir meu coração e dizer que eu gosto dos seus olhos, dos ossos do seu rosto, do seu maxilar, da sua barba por fazer, das marcas de expressão que você tem na testa, do seu léxico invejável, do seu caráter que é meio duvidoso e meio incorruptível, do fato de que você não fode e nem sai de cima. Eu tenho aprendido muitos palavrões novos com você e eu gosto de todos eles. Gosto da sua falta de compasso, da sua imensa dificuldade de seguir em linha reta, da forma como trança as pernas depois que bebe – depois de prometer que não vai beber mais. Eu gosto do seu gosto e de saber que tudo vai acabar numa manhã cinza quando, ao pegar a moto para cruzar a cidade, você vai perceber que não tem nada em mim que você já não tenha visto.
“É verdade, Jerry”
Não falamos nada. Talvez amanhã seja essa manhã.

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