Rodando

Ela olha o relógio com olhos que são um misto de cansaço acumulado e absoluto desprezo. Analisa o horário; sabe que não pode fugir. Passa a mão pelos cabelos – que já estão sem corte porque, bem, ela não tem se importado muito -, funga, cerra as pálpebras como quem espera que a noite volte. Desliza para fora da cama uns minutos depois. O sol parece de tinta atrás dos prédios da vizinhança. A rua canta alto e a cabeça dela dói por antecipação. Esfrega o rosto, as memórias vêm galopando, invadem o seu cérebro maltratado, se tornam imagens viscerais… e ela funga de novo. Queria chorar. Não lembra quando foi a última vez que chorou (talvez isso explique as constantes dores de garganta e as enxaquecas e as dores de estômago e tudo o mais?). Faz um esforço. Pensa em qualquer coisa muito triste, em animais de rua, naquelas palavras que ficaram, na saudade insana que sente de um ou outro, das tantas mortes que teve que enfrentar nos últimos três anos. Analisa as unhas roídas. Não se importa. Abre o armário, pega umas peças de roupa, entra no banho. Não liga a luz. O escuro é um afago. O escuro não fala. Ela prende a respiração e o som da água a transporta para qualquer cidade distante, qualquer vilarejo afastado do mundo – num lugar desses onde ninguém tranca a porta para dormir. Num lugar desses onde nada faz muita diferença. E ela não queria ligar, ela não queria ver, mas aquelas pupilas vêem tanto e ela pensa: cacete, eu estou ficando doida. Eu vejo coisa onde não tem coisa nenhuma. São vultos que me põem para dormir. Não descanso; apago. Acordo como quem levou uma surra. Procuro paz nas minhas fantasias e fico em pedaços quando o dia chega e o despertador toca. Com o banheiro cheio de vapor, ela desliza para fora do chuveiro. Passa a toalha pelo corpo largo. Põe defeitos nas curvas que a ensinaram a odiar a vida inteira. Ela nunca se sentiu dentro da carcaça que habita. Ela não consegue. Tenta, até, mas sempre é em vão. Faz caras e bocas pra disfarçar a vontade de socar o espelho até a imagem se pintar de vermelho. Balança a cabeça. É frouxa. Não vai quebrar nada. Caminha de volta para o quarto, troca de roupa uma e outra e outra e outras vezes até perceber que a roupa não muda nada. Desiste, enfia as coisas na bolsa, esconde um livro na bolsa interna e finge que vai lê-lo no caminho para o trabalho. São trinta quilômetros até lá. Isso não deveria ser normal, mas tem que ser. Atola os fones de ouvido nas orelhas enquanto desce as escadas. Cumprimenta quem passa com a cabeça. Abre um sorriso arreganhado, faz cara de quem está ótima, conta piada para fazer a boa moça. Quer chorar desesperadamente. Tenta quando se esconde no último banco do ônibus, mas as lágrimas não caem. Não vem uma filha da puta de uma lágrima sequer. Ela fecha os olhos em frustração, tomba a cabeça para trás, cantarola uma musiquinha, o tempo passa. Desce. Caminha. Ignora. Respira. Respira. Sobrevive. Come. Come. Atola a colher na garganta e deseja cuspir muito mais do que só comida. Bebe café. Bebe água. Bebe chá. Pensa em beber vodca até cair. Pensa em beber até que o choro guardado saia dela em bile, em vômito, em sangue. Cogita um cigarro. Ou dois. Ou dez. Ou porra nenhuma. Se encosta na cadeira. Pede: me tira essa ânsia, me desfaz em um pranto ridículo, dramático, convulsivo, me deixa sentir qualquer coisa deliciosamente horrorosa e verdadeira em vez de me fazer esse farrapinho que fica trafegando de um lado pro outro da cidade em busca de uma morte lenta por tédio, cansaço, estresse e poluição. Me tira, Deus, se você tá me ouvindo, dessa inércia. Tem um rombo no meu peito que parece que foi feito à bala. Eu não consigo estufar mais nada dentro dele pra ver se ele fecha ou se eu consigo ignorá-lo, ao menos. Então ela olha para o lado de fora e por algum motivo ela se vê refletida na janela. E está anoitecendo e é outra tarde que vai e ela desvia a face e se esconde, envergonhada. Não quer se ver. Não quer ver ninguém. Cobre o rosto. Desce. Caminha por entre os corpos, se coloca entre eles, se esmaga entre os quadris e peitos metrô afora. Não ouve mais o que dizem as vozes ao redor. Não sente nada além de dores nas pernas. Mente para si mesma que isso é verdade. Tem um mal estar tremendo. Queria ser feliz. Queria não saber que ainda precisa de aprovação. Queria, pelo menos, assumir isso tudo e não odiar cada segundo dessa percepção. Se deixa a mente vagar, nunca deixou de ser criança. Brinca no quartinho dos fundos da casa dos avós e espera ansiosamente pelo que está no forno. Ainda tem os dois avós. Nunca experimentou a morte. Não sabe o quanto dói. Acha que o que mais dói é arrancar a tampa do dedão. Perde um cachorro. Perde outro cachorro. Perde um avô. Perde um amigo. Perde outro, outro, outro e de repente morrem tantos amigos que ela tem medo de pensar qual pode ser o próximo. Mas sempre tem um próximo e ela sabe da inevitabilidade disso tudo, mas: por que era diferente antes, ela pergunta e não espera resposta. Tudo o que eu amo ou morreu ou está morrendo e eu não tenho coragem de naturalizar o naturalíssimo. Eu daria tudo pra conseguir chorar, meu Deus. Toma outro banho no escuro, come o que tem na geladeira, se coloca diante da escrivaninha. Regurgita em letrinhas o que a boca falha em traduzir. Naquele papel, quantas coisas ela é, quanto pode ser. Fecha o caderno, funga. Boceja. Não é sono. Deita. A janela está aberta porque ela tem precisado de luzes para dormir. Fecha os olhos. A mente vagueia. Está doente. É pequena até dizer chega. A dor piora debaixo dos cobertores. Se encolhe. Sente falta, sente desejo, sente medo, sente nojo, sente raiva, sente tudo ao mesmo tempo e de repente, mais nada. Esquece. Finge que esquece. Dorme em um algum momento entre as próximas horas. Ela olha o relógio com olhos que são um misto de cansaço acumulado e absoluto desprezo. Analisa o horário; sabe que não pode fugir. Passa a mão pelos cabelos – que já estão sem corte porque, bem, ela não tem se importado muito -, funga, cerra as pálpebras como quem espera que a noite volte. Desliza para fora da cama uns minutos depois. O sol parece de tinta atrás dos prédios da vizinhança. […]

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4 thoughts on “Rodando”

  1. Queria comentar algo encorajador ou que parabenize a escrita e a perfeita coesão do texto, mas não consigo. Você descreveu o que eu senti. Descreveu o que eu sinto. Desculpa não elogiar o texto. Obrigado por tê-lo escrito, eu sei como doi.

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