Animalesca

Ela tem um bicho encarcerado dentro dela. Não é o passarinho azul do Bukowski, embora ela goste de pensar que é. Ela tem um bicho que deve ser uma pantera, uma onça, qualquer coisa de presas grandes e olhos que enxergam demais. Uma criatura violenta, que posa de classuda, mas quer ver o sangue jorrar.
Ela tem vibrações debaixo da carne. Sente nas veias, nos músculos, um desejo, uma ânsia, um fascínio de entender, de sentir, de morder, de virar do avesso. Ela quer os opostos, as vísceras, os arranhões e feridas. Quer as cicatrizes. Quer afagá-las depois, mansa, apaixonada, revivendo e revivendo o que foi.
Ela vive no passado. Tem verdadeira paixão pelo que não pode ser mais. Tem dificuldades de viver o presente porque gosta mais dele quando ele não existe mais. Prefere as idealizações. Gosta dos corpos, dos cheiros, das vozes que tem na cabeça, na pele, no sonho. Não gosta de viver com os pés no chão. Não gosta de andar. Às vezes passeia os dedos pelas costas e espera se surpreender com um parzinho de asas. Modestas, que sejam, mas: asas. Qualquer coisa boba assim, adolescente assim, sem qualquer importância, assim.
Ela tem um bicho protetor guardado atrás dos ossos, escondido entre os órgãos, esperando a hora de defender, de se defender. Ela não consegue falar. Ela não consegue expressar. Queria ter dito com palavras. Queria não falar com o corpo. Lembra das coisas que tentou dizer com as mãos, com os olhos, com os lábios mudos, com os beijos no pescoço. Não disse, ainda assim, e isso muda tudo.
Quando deixa que o animal saia, que estrago ele faz. E ela o ama tanto e o odeia na mesma medida e já deixou as armadilhas preparadas. Queria vê-lo sem a perna. Queria atirar-lhe um tranquilizante na garganta. Sente-se sufocando só de pensar. Ela precisa dele. Da urgência dos seus passos, do seu instinto, das pulsões, do fogo. Ela é uma bagunça. Uma bagunça dentro, uma bagunça fora, uma junção de coisas horrorosas e de encantos infantis. Ela tem dias de doçura, mas enjoou de tanto açúcar. Gostava, gostava muito, mas o paladar envelheceu. Ela não gosta do tempo que passa. Não gosta de relógios. Mede a vida em orgasmos. Prefere os prazeres, sejam eles quais forem.
Ela tem um bicho amedrontado preso no estômago. Um bicho que chora e pede ajuda e se contrai e a faz vomitar. Ela o controla quando pode, mas ele beira a histeria. Não sabe o que fazer com ele. Espera acalmá-lo um dia. Ela espera tanta coisa. Tanta, tanta coisa.

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