Eu tinha dito que não escreveria mais nada sobre sua saborosíssima pessoa e estava seguindo firme na minha decisão até ontem à tarde. Então você apareceu depois de meses e fez o que você faz de melhor e eu comprei três latas gordas de cerveja na volta pra casa e decidi que escreveria sobre você até que a minha raiva, a minha ânsia e a minha vontade de você fossem embora na minha vontade de vomitar e dormir e escrever e eu vou falar até ficar rouca, até chorar em cima do teclado e não enxergar mais porra nenhuma, até jogar você pra fora através das minhas lágrimas, dos meus dedos, de qualquer coisa boba assim.

A bem da verdade é que eu depositei minhas expectativas em você porque eu quis. Eu estava absurdamente desesperada para sentir qualquer coisa e você caiu de um sonho bonito nos meus braços e eu pensei que puxa, parece que finalmente eu vou conseguir me entregar pra qualquer coisa que vai acabar horrorosamente, mas pelo menos me dará algum conforto MAS você foi tão efêmero que não serviu nem para me matar o desejo de algum carinho, de algum afago – não serviu, meu Deus, nem para que eu me sentisse mais eu (para mim, no fim das contas, porque tudo tem que ser sobre mim, moi, ego). Eu te dei insignificâncias como o meu corpo e toda a minha necessidade de carinho e você jogou fora porque bom, certamente eu estava aquém do que você queria. Quero te fazer uma pergunta, entretanto: você já se perguntou como eu me senti nos dias que passaram, depois daquele dia fatídico? Você se importou, minimamente que seja, com os meus olhos que procuraram os seus, com os meus dedos impacientes a digitar perguntas, com a minha voz a questionar se você podia me ouvir? Eu sei que não, mas acho que aceitaria uma mentira agora. Eu te esperei na rua debaixo de um clima não tão ameno – deus sabe que eu só queria te ver. Meu coração é essa coisa babaca que não se deixa levar por quase ninguém e se deixou levar por você e tudo o que eu recebi por tanto tesão de te encher de amor foi uma risada ruidosa. Eu te esperei. Eu só queria olhar pro seu rosto, que eu acho tão bonito, e dizer que eu te esperei só pra olhar pro seu rosto e te dar um beijo na boca e sair andando porque eu nunca, nunca ia pedir mais do que isso. Eu só queria você. Com as suas faltas e erros e defeitos e esquisitices e infantilidades, eu queria você. E eu estava disposta a te dar o pouco que eu tenho, que é essa massa amorfa de futilidades e paixões e descontrole e volúpia e etcéteras bestas. E eu estava lá e eu vi o tempo fechando e eu sabia que podia chover, mas eu queria você e os seus olhos que sempre me pareceram tão interessantes e tão tristes e combinavam com os meus – sabe? Combinavam, sim. Eu que estou sempre rindo e brincando e falo mil verdades com o meu rosto expressivo e minha boca muda. Eu não queria estar sempre tão nua pra quem me conhece bem. Gosto das minhas fantasias, das minhas máscaras, do meu fingimento de Afrodite (e eu falo assim, bem assim, com a mão na cintura e a cabeça erguida, os olhos no horizonte e eu digo que acredito, mas não acredito em porra nenhuma). E vai mais uma lata enquanto eu digito e os meus dedos se perdem no pequeno teclado e eu acho que qualquer um que goste de literatura de qualidade vai olhar pra mim e me achar uma vergonha e olha, eu devo dizer que concordo. Concordo muito, com todos os advérbios de intensidade que eu conseguir usar. Como pode alguém se sentir tão torta? Como pode alguém se enxergar toda errada? Eu sou uma pintura cubista, cheia de falhas e misturas e pedaços que nunca vão se encaixar. Eu não quero ajuda pra mudar, eu quero compreensão. Eu quero que me olhem nas minhas imbecilidades e incongruências e percebam que eu, apesar de tudo, gostaria de poder falar um pouco sobre tudo o que está me sufocando e me fodendo há uns anos e eu queria, muito, muito, tanto, que alguém me dissesse que eu não preciso me preocupar e que eu posso me olhar no espelho sem sentir vontade de matar alguém, de me matar no processo – parece um drama, mas não é drama, é algo recorrente, você não tem direito de me dizer que é bobagem. Você não sente. Você não está na minha pele, não veste minhas roupas, não calça meus sapatos. Como eu queria não me sentir tão envergonhada o tempo todo. Como eu não queria carregar essa culpa que é um acessório chamativo, um colar, uma medalha no meu peito. Ela anda comigo, à mostra, me exibindo como uma perdedora para qualquer um que caminhe por perto. Eu ando, eu ando e eu tenho uma sede, um nojo, uma irritação – eu estou lúcida, mas estou puta. Estou puta de um jeito que faria um beato se benzer. Preciso de mudanças, preciso de afirmações, preciso de reafirmações, preciso de chacoalhadas, de ofensas, de qualquer coisa que me tire da inércia, de qualquer… qualquer. Que seja grande, o que quer que seja. O soco, o pontapé, o grito, a violência, eu preciso – eu preciso de qualquer coisa que me despedace e tire do rumo e me faça sentir coisas imensas e terríveis e lindas e vulgares e escandalosas e inacreditavelmente reais e me tire dessa confusão terrível. Se vai mais uma lata e eu não faço sentido, mas minhas costas doem menos. Pelo menos.

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