Das nossas correspondências

Mocinho,

Recebi sim a sua carta, não vou mentir. Não quis responder. Estava aborrecida ainda pela nossa última conversa, ainda que ela tenha acontecido há seis meses. Não te perdoei inteiramente pelo fato de você ter ignorado o meu pedido e preferido gastar suas duas últimas noites num bar fétido em vez de vendo a vida passar do 19º andar comigo, mas sei que isso é problema meu. Você não me deve nada agora e não me devia nada antes; era só uma questão de ego. De qualquer maneira, escrevo por aqui porque tenho certeza de que não te acharia se enviasse uma carta para aquele hotelzinho de Istambul (era isso mesmo?) do qual você me escreveu pela primeira vez.

Sem mais delongas, queria perguntar em caixa alta: ISTAMBUL? Você mentiu pra mim ou mudou de ideia na hora de pegar o avião? Não entendo nem o motivo pelo qual estou surpresa. Volta e meia releio as suas anotações no meu livro preferido (eu te odeio por ter rabiscado todo o livro que eu te emprestei – se você soubesse como foi cara aquela edição de capa dura, meu deus) e entendo que não é possível te entender, te decifrar, saber para onde você vai. Você não pode ser roteirizado. Isso me chateia um pouco porque eu nunca sei como te agradar e estou sempre correndo o risco de te ofender mortalmente.

Como é que vai o passeio? Essa sua busca por você mesmo está te levando para os lugares mais abissais e isso me fascina tanto quanto me aterroriza. Estou sempre esperando para ver alguma notícia sobre um jovem brasileiro de cabelo de messias e barba por fazer que foi encontrado em pedaços num laguinho da Finlândia ou num templo da Índia ou sei lá, qualquer coisa que o valha. Não sou boa de geografia. Você também não é. Será que é por isso que foi parar em Istambul em vez de parar em Veneza? Era Veneza mesmo? Você falou tantos nomes, citou tantos destinos que talvez seja a minha cabeça me pregando peças e te enviando para os caminhos errados. Você é um caminho errado também, sabia? Não tem como ser o mesmo depois de conhecer você. Não tem como continuar a vida na mesmice, trabalhar das oito às cinco, comemorar o fim de semana e as sonecas no sábado à noite e achar isso legal depois de. De tanto, nossa, realmente. Eu lembro das suas tatuagens todas e dos seus dedos ralados de quem socou a parede, eu lembro da sua voz rouca de cantar madrugada adentro enquanto subia e descia a avenida principal, eu lembro de você infinitamente puto da vida com o trânsito, vendendo o seu carro e comprando uma bicicleta. Lembro de você cheio de hematomas e mancando por três semanas depois de bater num carro e voar por cima do vidro. E você achou isso engraçado e eu quis esfregar suas bochechas no asfalto pra você tomar vergonha na cara, mas te admirei. Admirei seu desapego pelo seu corpo, sua sede de adrenalina, sua resignificação do mundo. Seus papos antropo-astrológicos, suas ânsias de vômito, seu desejo de depredar prédios privados, seu furor adolescente. Você me dizendo que eu era gasolina pro seu fogo e eu achando essa a coisa mais imbecil e poética e brega e linda do mundo enquanto dava um tapinha no seu ombro. Imagino sua sobrancelha erguida enquanto você me lê admitir isso. Agradeço, de repente, por você estar longe. Me poupa do constrangimento, de certa forma (e isso é mentira).

Não sei o que te dizer acerca das perguntas que você me fez. Não direi nada sobre as mais complicadas. Vou falar de trivialidades: não me tatuei mais, não. Não foi por falta de vontade, isso eu te garanto. Foi um pouco de falta de dinheiro e medo de atrapalhar as coisas no teatro. Disseram que ator tatuado tem mais dificuldade de arranjar papéis. Não faço ideia, mas achei melhor não arriscar, sabe? Não que eu ache que vou ter muitos papéis nas próximas semanas ou meses, mas sonhar não arranca pedaço. Também não estou mais com o cabelo descolorido. Fiquei careta, fiquei meio sem graça – acho que é a velhice chegando. Eu sei que você é mais velho que eu, mas vamos combinar que você tem em energia o que eu tenho em sono? Pois é. Te acendo uma vela de vez em quando, sabia? Acordo no meio da noite com a impressão de que você morreu na savana e choro até ficar azul, então acendo uma vela e peço para todos os anjos e entidades zelarem pela sua segurança porque você certamente não está fazendo isso. Sua perna está melhor? Que ideia a sua, pular do segundo andar. Podia ter sido bem pior do que foi. Você é impossível. Quantos cabelos brancos você me dá, mesmo à distância. Vai sair um filme novo de Star Wars e eu sei que você também gosta de trilogia nova (somos raros, companheiro, mas existimos), então não posso deixar de perguntar: você vai assistir em que lugar? Ri sozinha imaginando as legendas em russo e você desesperado tentando entender. Me conte dos seus planos. Me fale dos últimos aviões que você pegou, das suas conquistas amorosas. Se apaixonou por algum nativo de Sri Lanka (me diga que entendeu essa referência, por favor)? Aprendeu a língua do amor com alguma francesa viciada em pílulas e que ouvia Piaf debaixo da torre, em prantos? Tenho torcido imensamente pela sua felicidade. Nunca foi diferente disso.

Quando você cansar de brincar de Rimbaud, volte correndo. Não tenho os encantos dos territórios inexplorados que tanto te interessam, mas tenho ouvidos e a mesma, mesmíssima vontade de engolir o mundo todo. Só me falta a sua coragem. Ainda. Quem sabe não faço a louca e me enfio num cargueiro e te acho em Praga, numa noite de verão, à beira do lago (não sei se tem um lago em Praga, eu disse que minha geografia é um lixo – considere licença poética e me diga que entendeu essa referência também). A gente não é sério com 17 anos, Arthur. Nem com 22. Estou indo para os 23. Queria vomitar meus anos na calçada como se fossem bebida barata. Não dá.

Um abraço saudoso.

Alice

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