Olhos de mar

Um pouco de calma, uma pitada de paciência, seus dedos no meu cabelo. E você do meu lado, naquele silêncio nosso que diz tanto, e seus cabelos estão tão compridos e se espalham pelo travesseiro e emolduram seu rosto e a sua pele alva e os olhos claros, claríssimos, piscínicos (admita que gostou do meu neologismo, vai – você sempre disfarça o sorriso, mas não me engana, não me engana nada). Um pouco de tempo. Talvez eu precise de mais, talvez isso nunca passe e essa memória triste me assombre e me acorde apavorada no meio da noite (como já aconteceu algumas vezes) e eu sei que nunca mais vou conseguir sentir do jeito que eu sentia antes daquele dia e eu nunca vou me esquecer das palavras, do sentimento, daquela sensação que eu não consigo te descrever – você que não tem vergonha de falar das coisas em voz alta, fala de mim para mim? Eu queria me ouvir através da sua voz rouca. Tudo o que você fala parece sagrado e eu acredito que, se eu te ouvir monologar sobre tudo o que passou comigo, de repente… De repente tudo vire uma coisa mágica, interessante. Melancólica, sim, triste, sim, mas não mais tão desesperadora. Eu queria que você me garantisse que o meu papel não foi aquele que eu acho que foi, que eu posso ter sido desleixada e descuidada e um pouco ingênua e um bocado burra, mas que eu tinha direito de errar e eu tinha direito de sentir e eu queria que tivesse sido você lá. Eu acho que me sentiria tão melhor se fosse a sua mão estendida lá. Eu teria enroscado nossos dedos, eu teria pedido pra você cuidar de mim e você sabe, eu não deixo muito que me cuidem. Eu tenho pavor que fiquem me dando atenção demais. Não sei se era assim antes, sabia? Eu não lembro. Acho que sepultei essas coisas pra não ter que lembrar do que inevitavelmente viria junto se eu lembrasse de coisas pequenas. Eu tenho uma memória esquisita. Eu lembro de um fato isolado e esse fato isolado me conduz a outra história e essa outra história me leva para momentos terríveis e esses momentos terríveis tomam conta de mim e meus membros começam a tremer e é mais ou menos nessa hora em que eu começo a mentalizar coisas boas e corro para o banheiro e sento na cabine e fico respirando pesado e torcendo para passar rápido. Eu tenho esses momentos. Estão sob controle agora, mas já estiveram bem piores. Teve uma vez em que eu saí para ir ao mercado e tive um acesso e sentei num banco qualquer e eu não conseguia respirar e eu sentia um medo gritante, horrível, bizarro, uma coisa assim como um nó, uma âncora me puxando pra baixo e eu achei sinceramente que ia morrer e meus ossos começaram a chacoalhar e foi a única vez que foi tão forte assim, mas já tive alguns pequenos acessos desde então e tem dia em que a minha cabeça não se cansa de conectar horas, dias, palavras, conversas, pessoas, fugas, rotas de colisão, tem dia. Descobri que a meditação me ajuda, assim como trabalhar a minha espiritualidade e ouvir mantras, rezas, palavras de gente que entende das coisas muito mais do que eu entendo. Descobri que preciso de ajuda, num geral, apesar de ainda não aceitar bem quando a ajuda vem. Desculpe. Eu gosto do seu cabelo grande assim, emoldurando seu rosto que eu acho tão, tão simétrico e tão diferente de tudo o que eu já vi antes. Eu tenho uma tendência enorme a ir juntando os assuntos quando eu me empolgo ou quando eu me sinto muito disposta e é difícil que eu tenha essa ânsia – obrigado por guardar seu sorriso para os instantes em que eu mais preciso dele. Não nego que ele me faz bem e que me faria bem em n outras circunstâncias, mas penso que saber que você só vai sorrir em uma hora crucial, em uma revelação bombástica, em um desabafo histérico, em uma declaração de amor das mais entupidas de palavras repetidas, tudo isso me dá muita fé no seu sorriso e na realidade do que você quer passar com ele. Você é de verdade. Suas unhas curtas e arredondadas, seus dedos longos, seu braço de veias saltadas, seus ombros largos, seus quadris estreitos, sua altura modesta e esse cabelo que não vê tesoura há muito tempo, tudo isso está ao alcance dos meus olhos e das minhas mãos e nada do que é seu me pertence, mas você me dá tanto e nunca me pede nada de volta. Você sabe que eu gosto muito de ler o que você escreve? Um dia desses você podia escrever sobre mim. Eu sou ególatra? Talvez, não sei. Acho que sou também, mas o que predomina é insegurança. Eu queria não ter que supor a sua opinião sobre mim. Eu estava lendo um livro esses dias que falava sobre a Brigitte Bardot e sobre o fascínio da imagem dela e de como, na verdade, desejamos não a pessoa viva, mas o desejo do inatingível. Não era sobre a Brigitte Bardot, era sobre o corpo escultural, os cabelos perfeitos, o rosto, as nádegas pro alto naquele filme em que ela era a Camille e havia sido vendida pelo marido. Não é a Brigitte Bardot, é a promessa daquilo que ela é. Entende? É desejar o desejo, não sei se consigo explicar da mesma forma. Para filosofia, eu sou uma negação. Gosto, mas não sou boa nisso. Fico pensando e tentando colocar em palavras e não sei, não consigo, não funciona. Mas entende? Eu desejo você e desejo suas mãos pele unhas pêlos cabelos olhos palavras sonhos vontades medos tudo – e estou ciente de que tudo isso é idealização minha, mas ao mesmo tempo eu não tenho certeza. Me escreve uma coisa assim, uma hora dessas? Mas depois. Depois. Eu não sei quanto tempo durou o seu sorriso, mas isso foi tudo o que passou pela minha cabeça quando você franziu o cenho e afastou os lábios e mostrou os dentes e eu fiquei só olhando e olhando e olhando. Como é bom olhar pra você.

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