Dos confins

Rio de Janeiro, vinte e sete de março de dois mil e nove, a tarde é estranhamente fria. Dói. Não sei ainda dos meus hormônios errados, do meu corpo já começando a cair aos pedaços, mas tenho uma sensação estranha no peito. Um zumzumzum esquisito me perturba a cabeça. Eu empurro para longe os pratos cheios, afago com dedos trêmulos o meu ilíaco proeminente, me elogio pela minha força de vontade e ainda assim, dói. Queria ter descoberto as coisas contra as quais luto hoje um pouco mais cedo – dizem que é mais fácil curar uma doença no início, não é mesmo? Eu sempre esperei tempo demais para agir. Sempre me fizeram sentar e aguardar, na verdade, mas fui eu que aceitei a inércia. Talvez por ignorância, mas muito mais possivelmente por medo. Eu sempre tive medo e sempre fui silenciada. As dores que eu sentia eram absurdas. Eram desesperadoras. Quantas noites engolindo as palavras que eu queria escarrar porque sabia que não podia abrir a boca. Quanto tempo presa em mim – tempo tanto que hoje não consigo ficar só sem me sentir tremendamente desgostosa. Eu comigo não caio bem. Queria vencer o rancor que sinto ainda, de vez em quando. Rio de Janeiro, um dia qualquer lá pro mês de outubro de dois mil e nove, eu me sinto tão fraca que as minhas pernas tremem. A balança me dá números menores e eu sorrio como quem ganhou um prêmio raro. Penso em números cada vez mais insignificantes e, de tão leve que fico, imagino que voo. A ideia de criar asas sempre me apeteceu e até hoje me acorda nas madrugadas de sábado para domingo e me faz infinitamente amargurada. Em outubro, eu tenho fagulhas de um amor pulsante. Em outubro, descubro uma tristeza crônica, qualquer coisa como uma ojeriza de felicidade. Eu achava isso lindo. Que bonito esse meu ultrarromantismo, esses meus escritores malditos, todos metidos na lama da genialidade. Nunca tive essa inclinação para o excepcional, mas todo mundo tem um sonho inalcançável que gosta de cultivar pra arranjar motivo pra viver. Eu só quero o que eu não posso ter, desde sempre. Facilitar as coisas para mim nunca foi uma opção. Que afortunada decisão. São Paulo, mês de julho de dois mil e dez, eu tenho um buraco no peito que foi feito quase que na base da machadada. Minhas vísceras têm fogo, meus olhos são chamas, minha vontade é uma labareda num chão de pólvora. Eu quero explodir. Eu quero levar tudo o que está ao meu redor para o inferno da minha catarse, do meu declínio, da minha autodestruição. Não tenho mais idealizações. Perdi todos os meus referenciais. Estou vindo do mais raso de mim e eu tenho medo. E eu estou só. São Paulo, anos de dois mil e doze e dois mil e treze. Eu não consigo lembrar de muita coisa concreta. Existem uns fatos isolados que fizeram toda a diferença, uns fatos que salvaram a sanidade, possivelmente algumas das cenas mais bonitas da minha vida – mas num geral, na maior parte do tempo… parece que eu sumi. Saí do meu corpo e planei por aí, incapaz de tomar as rédeas de mim, incapaz de fazer algo além de assentir. Rio Grande do Sul, final de dois mil e treze, eu corro para o banheiro e afundo meu rosto nas mãos e eu choro e mancho a minha maquiagem e retoco meus olhos vermelhos de tinta, essa bem preta. Lanço meu cabelo loiro para o lado e eu não sou ninguém que eu conheça no espelho. Passo mais e mais batom. Meu estômago pede comida e eu de novo, lembrando da mocinha mirrada de uns anos antes, afago meu ilíaco com dedos incertos. Não como. Sento debaixo do céu farto de estrelas e vejo fogos e tenho fogos e fome por dentro. São Paulo, dois mil e catorze, eu preciso de ajuda. Más notícias. Uns corpos velados cedo demais. Tenho vontade de deixar tudo aqui e voltar pras quatro paredes sólidas do meu antigo quartinho de dormir, mas me faço de rocha, me faço de ilha, canto aquela música antiga quando estou em minha agridoce companhia e fico firme. Sinto um amor potente e recebo um soco igualmente agressivo. Procuro abrigo na minha espiritualidade de uma forma que nunca procurei antes e entendo sinceramente o motivo pelo qual as pessoas se sentem tão precisadas de (um) deus. Tomo um remédio que às vezes me dá ânsias de vômito, às vezes me faz dormir o dia inteiro e às vezes não tem efeito. O que me nutre me destrói, puta frase batida, mas puta frase real. As coisas da vida do Vonnegut fazem troça de mim no meu cérebro. Meu cabelo está ralo e eu não sei se é excesso de química (química que eu enfio na boca, que eu passo na cabeça, que eu esfrego na pele), mas essa preocupação não me tira o sono, não. Eu afago meu ilíaco com meus dedos pequenos e esse corpo não é meu. Enxoto o ano com medo de tudo. Engulo outra pílula e não durmo, não vomito, só não sinto nada. São Paulo, dois mil e quinze. Não consigo dormir, então escrevo. O cansaço vem enquanto meus dedos acertam as teclas e eu não quero corrigir mais nada. Me exponho pros outros pra ver se me enxergo também. Meu peito não dói, só pesa. Já é alguma coisa.

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1 thought on “Dos confins”

  1. Se fosse só o texto…

    O problema é que eu consegui ler ouvindo sua voz na cabeça. Cada uma das suas inflexões, cada uma das suas pausas dramáticas. Ouvi o texto como um desabafo, como um grito desesperado de alguém que sacode as próprias entranhas. Ouvi o texto como se fosse você num palco e eu, apenas eu, estivesse na platéia, tão perto e tão silencioso que poderia ouvir o barulho das minhas próprias lágrimas acertando o chão, de com força.

    Puta sociedade bizarra que exige normalidade da gente. A normalidade é um erro. O que conta é a intenção e a angústia de tentar ser mais, ser melhor, fazer o melhor a cada dia.

    Mas estamos sós. Nas imensas vagas de nossas solidões silentes, sofremos juntos, como irmãos que fingem não perceber o que é tão óbvio que dói. Mas aí, a dor aparece assim, na nossa frente, escancarada e indócil.

    Obrigado.

    As lágrimas aqui doeram, mas foram sinceras.

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