Conta ela que toda a dor que ela carrega nasceu de uma noite na praia que nunca mais se repetiu. Uma noite de lua gorda, de ondas mansas, de silêncio pós-segredo-desestruturador. Ela conta, mas eu não acredito. Nunca a havia visto minimamente feliz em qualquer momento antes dessa noite da qual também sei (lá estive, de longe eu vi) e acho que é só mais uma das mil desculpas que ela inventa para não assumir que o pranto que espalha deriva dela inteira, das paranóias que a acompanham, daquelas coisas que engasgaram feio no caminho entre as cordas vocais e o mundo para além dela. Ela me conta de dias que não acho que aconteceram, mas não lhe digo nada. Observo. Afago seus cabelos ralos. Digo que ela vai ficar bem. Ela me abraça com olhos de névoa, tem aquela expressão que eu amo e nunca consegui decifrar bem. Como ela dói.

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