Da musa de carne e osso – Parte I

Alice estava sentada na janela. Fumava um cigarro de cheiro horrível. Acho que era de canela. Eu nunca gostei de canela. Suspirei e lancei um olhar incomodado, mas minha musa não percebeu. Manteve-se silenciosa, quase sem se mexer, analisando a cidade. Do décimo quinto andar em que estávamos, o mundo lá embaixo não era nada. Para os transeuntes desavisados, nosso pequeno apartamento no centro era uma luzinha em meio a um milhão de luzinhas.

– Cair do décimo quinto andar deve ser uma morte e tanto – ela comentou de repente, quase que despretensiosa, e eu segurei minha vontade de bufar. Fiz um som qualquer com a boca meio fechada, meio aberta, e tentei me concentrar na tela do computador e no texto que eu espero que um dia se transforme em um livro.

Eu sempre quis viver da minha escrita. Tenho em mim aquele tesão literário que teve todo escritor que morreu de fome. Tenho fome de letrinhas, de universos, de distopias. Alice é minha protagonista, dentro e fora do papel, e são noites como essa que me fazem lembrar da razão pela qual eu a elegi como personagem principal do meu livro. A heroína dos olhos moles, dos cabelos encaracolados, da pele queimada de sol. A jovem cigana da boca rachada, dos braços roliços, da cintura de vespa. Alice não é só bonita, ela é avassaladoramente encantadora. Algo ela tem. Não sei o que é. Nunca soube. Escrevo-a pra ver se descubro, entre os parágrafos, o que foi que me fez amá-la desse jeito.

– Cair do décimo andar é improvável, Alice – respondi então. – Dificilmente alguém desequilibra e cai dessa altura toda. A maioria das pessoas não consegue ficar na beirada da janela.

– Só quem gosta de sentir que vai morrer, né? – Ela perguntou e, devagarzinho, inclinou o corpo para fora. Virei devagarzinho, contemplando-a sem grandes emoções, sabendo que Alice, no final das contas, não faria nada. Ela ficou daquele jeito por alguns minutos e retornou para dentro, ainda naquela lentidão excruciante. – Você não achou, em momento nenhum, que eu ia pular?

Conheci Alice quando ela ia se matar. Eu estava a caminho de casa numa noite fria pra cacete e a vi lá, majestosa num vestido azul, chorando. Metade do corpo ia em direção ao mar, metade do corpo insistia em ficar do lado de cá da ponte. Puxei assunto, chamei sua atenção, fui xingado de todos os nomes possíveis – Alice tem a boca mais suja do estado -, mas não saí. Não arredei pé até vê-la sentada no chão, abraçada com os joelhos, suja de pó de cimento, poeira e maquiagem escorrida. Não arredei até que ela me deixasse abraçá-la e conhecê-la e de insistir para que me desse a chance de lhe comprar um café. Ela deu. Tomamos três copos. Ela riu de mim quando eu comecei a tremer e quando corri para vomitar no banheiro. Ela era forte pra cafeína, me disse. Tomava muito porque tinha que trabalhar por horas a fio e sabia que não aguentaria. Era melhor que cocaína, comentou. Não que eu já tenha cheirado, mas é que cocaína é tão caro. Esse é o tipo de comentário que você não espera ouvir de uma moça de cara de anjo de 20 anos de idade, mas é exatamente o tipo de comentário que Alice se diverte em fazer. Parece que tem uma cisma em constranger as pessoas.

– Não, Alice, não achei – falei, então, e ela abriu um sorriso largo. Riu. Emendou um cigarro no outro, apoiou a cabeça na parede e cantarolou uma música do Johnny Cash

Girei lentamente a cadeira, voltando para o meu protótipo de livro. Alice, que se tornou Sofia na literatura, enfrentava a terceira noite de insônia por medo de estar doente. Afagava os seios com as pontas dos dedos, nervosamente, acreditando estar com nódulos, com “algo terrível”, com “qualquer coisa que vai deixá-la no seu leito de morte”. Repetia “você deveria ter me deixado morrer quando teve chance”, agarrada com os lençóis, chorando sem parar. Minha heroína nunca teve nervos de aço.

– Quando você vai terminar esse livro? – Ela perguntou de repente e eu balancei a cabeça, sincero sobre a minha incerteza. Ela suspirou ruidosamente. – Três meses sem sair de casa, quase. Não te dá vontade de ver como a vida continuou sem você lá fora?

– Acho que não – comentei, fungando, já decidido a não lhe dar mais atenção.

Alice, eu quero terminar esse livro e fazer fortuna. Quero te tirar desse apartamento que não é bem um apartamento, mas uma sala de 30 metros quadrados que transformamos em morada. Nós merecemos mais do que revezar para ver quem pendura as roupas no varal essa semana. Nós merecemos mais do que camisetas que fedem a fritura porque a lavanderia e a cozinha são basicamente a mesma coisa e a ventilação é uma piada e a única janela tem tamanho suficiente para passar um suicida e nada mais. Eu quero te tirar dessa situação torta e mostrar que valeu a pena te agarrar pela saia e te puxar para longe das ondas famintas. É por você e é por mim. Alice, me entenda, não me vire a cara, pegue o casaco e saia de novo. Prometo que vai melhorar. Prometo.

Continua.

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