Somos instantes

Sabe que te imagino bem com os cabelos maiores, crescidos já quase no meio das costas, bem cacheados, bem animalescos e atrás de você uma selva de pedra que não é São Paulo e não é Rio de Janeiro e não é nenhuma dessas coisas que você já cansou de ver por aqui e eu fico absorta nessa imagem de uma nova você, uma nova pessoa, uma nova Gabriela, de unhas ainda curtas, de vestido de bolinha e casaco listrado e sapatos de salto comprados num brechó de Praga e de meias rasgadas porque você, assim como eu, gosta mesmo é do estrago e não tem problema nenhum em afirmar, berrar, analisar, demonstrar, vivenciar o caos e lembrar-se e lembrar-me e mostrar pro mundo e pra quem mais quiser ver que só se sabe ser alguém quando se vai até o fundo do poço e volta – e você sabe que foi e voltou e tudo o que você é agora é muito bonito e muito inteiro e muito volátil (eu gosto dessa palavra, mas te digo sinceramente que nem sei o porquê), mas não se parece nada com o que você será daqui a seis ou sete ou dez meses, que vai ser o tempo que você vai ficar longe e descobrir universos e situações e cidadelas magníficas no meio do nada e casas abandonadas e cemitérios (me fotografa uns cemitérios, você sabe como eu gosto deles) e vai provar mil comidas com ingredientes que não estão disponíveis deste lado do mapa e vai sentir uma saudade danada de leite condensado e de brigadeiro mas vai descobrir doces portugueses e iguarias que custam centavos de euro na República Tcheca e vai se apaixonar por mil estradas e mil músicas e vai ter histórias lindas e histórias horríveis e vai sentir muita falta de quem te ama daqui, mas vai descobrir que, sendo como você é, não vai te faltar gente pra te amar em qualquer lugar do globo. Sabe que te imagino voltando outra, limpa, nova, inteira, disposta, mas uma folha em branco pra uma vida nova depois de você mesma? Você não sabe como eu te quero bem. Não sabe como te desejo felicidades. O nome do princípio ativo é Passiflora Incarnata, te digo só pra você lembrar que não faz mal tomar um ou dois comprimidos no avião porque você, assim como eu, também tem cagaço de avião. O ar reciclado não é tão ruim assim, entretanto, a gente é que é extremista demais. Mas quem vive nas pontas sempre vive mais (embora às vezes corra o risco de viver menos). Amor e felicidade, Anne, amor e felicidade. Evoé.

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