Linha vermelha adentro

O metrô demora consideravelmente às vinte e três e quarenta de um domingo. Ela troca de um pé para o outro, impaciente, incomodada, interiormente eufórica. O vento que bate no corpo dela faz com que se arrepie. Move as pernas uma contra a outra. Pernas. Aquelas outras pernas afastando as coxas dela. Aqueles dedos longos contra os cabelos que ela deixou de pintar faz tempo. A boca de corte tanto cruel quanto divino fazendo com que os olhos dela revirem nas órbitas, insana, nervosa, não sabendo se aquilo que vê, aquele sorriso torto, vem de um Botticelli ou de uma carranca. Ela morde a boca de batom vermelho, consternada por um instante. Sabe que não deve pensar demais. Não pode, não deve, mas quer – meu deus, como ela quer. Quer daquele jeito dela, lascivo, desengonçado, quase adolescente, quer morrer nos seus quereres. Quer porque quer, reverberando desejos debaixo da pele pálida, repetindo infinitamente seu coro de ais, de silvos, de libido trêmula. Sabe que não deve pensar, mas quer tanto. E não há para quem ligar. Olha para o metrô que chega. Caminha para dentro dele como quem gostaria de estar entrando na casa de um amante, mas sabe que o destino é outro. A porta se fecha e ela olha para os lados. Olha. Olha. E passa vontade com o trem que passa na estação seguinte, cada vez mais perto de onde ela não queria estar.

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