Pai

Pai,
Vai dar uma da manhã e eu trabalho cedo amanhã, mas simplesmente não consigo dormir. Seu rosto cansado me vem à cabeça e mil pensamentos me atravancam o cérebro e eu não consigo pregar os olhos, descansar ou evitar essa chuva de frases perturbadas que inunda os meus neurônios. Pensei em te ligar, mas não quero acordar você. Sei que seu dia será difícil e comprido e você precisa, acima de todas as coisas, cuidar de você.
Eu queria acender um cigarro pra ver se a fumaça acalma esse tambor frenético no meu peito, mas não vou fazer isso porque parei de fumar. Admito que, de vez em quando, ainda roubo um trago aqui e ali, mas: parei. Juro. Parei porque me faz mal, porque me amarela os dentes, porque custa caro e porque sinto que é falta de respeito continuar fumando depois de todo o histórico que a nossa família tem com isso. Cigarro me acalma muito e sempre foi uma válvula de escape pra minha ansiedade, mas estou cuidando disso de outras formas. Tenho comido muito, por exemplo. Tenho roído unhas e procurado jeitos pequenos de me machucar pra ver se faço meu corpo funcionar um pouquinho melhor. Que apego a gente tem por aquilo que machuca a gente, né, pai? Eu herdei isso de você ou você aprendeu isso comigo? Essa resposta eu não tenho. Espero você me dizer, se estiver afim (ou se souber).
Eu amo tanto você que acho que vou vomitar se não te disser isso pessoalmente, e depressa. Eu sinto tanto a sua falta que choro nos bancos do fundo do ônibus que pego toda manhã e imagino que o destino dele é a casa onde você está. Eu queria te dar um abraço e pedir desculpas por todas as vezes em que não te fiz feliz, ou pelo fato de eu também ter uma personalidade combativa e, meu Deus, como a gente já se estranhou nessa vida. Tudo o que eu queria hoje era nunca ter brigado com você. Eu te amo tanto. Eu te quero tão bem, tão vivo, tão vivo. Não vai embora tão cedo, por favor. Faz um esforcinho pra gente ir pra Vegas jogar pôquer num cassino duvidoso e quebrar a banca. Faz um esforcinho pra gente beber numa rua movimentada, falando do mundo, dos sonhos, das coisas – e tudo isso sem fumar, porque a gente não precisa de cigarro. A gente precisa um do outro. A gente precisa de compreensão e amor e tolerância e respeito e fé. E eu tô me segurando na fé e no amor pra acreditar que logo estarei segurando as suas mãos e te mostrando a minha tatuagem nova e dizendo a verdade: ela foi feita pra você. Ela foi feita pra você, pra te dar força e ânimo na batalha e te mostrar que não existe ninguém nesse mundo que te adore e admire tanto quanto eu.
Fica. Eu imploro, fica. Não tô preparada para uma vida sem você. Se eu me faço de forte, é só porque eu preciso ser, mas eu não quero ser forte. Eu quero ser criança e ficar sentada no sofá, do seu lado, vendo um jogo de futebol que nunca me interessou (mas que hoje me parece a melhor coisa do mundo). Eu quero ser criança e ter você ao alcance da minha mão, rindo e falando besteira e comendo chocolate mesmo com a sua diabetes e me contando de tudo o que aconteceu quando você tinha a minha idade. Eu preciso de você. Acima de qualquer coisa que eu possa sonhar, o que eu mais quero agora é você bem. Não quero mais pensar em mim. Eu quero e preciso da sua companhia nesse caminho de pedras, e só o seu sorriso basta pra trajetória ficar menos doída. Como tá doendo. Como tá doendo. Eu queria que tudo isso parasse. Queria apertar um botão que me teletransportasse para uma manhã bonita, num dia claro, imaculado, tranquilo. Queria te ver na mesa do café da manhã, me cumprimentando com cara de sono e reclamando, reclamando, reclamando do despertador que te tirou da cama tão cedo e do trânsito desgraçado que você vai pegar até o centro da cidade. Eu queria ouvir seu lamento mal educado por horas. Eu queria ouvir de você qualquer coisa. Eu queria que você estivesse aqui. Como eu queria.
Eu te amo muito. Eu tô contigo e não abro. Vou te parafrasear pra me sentir por perto: que a sabedoria esteja sempre comigo. Que a sua sabedoria não te abandone nunca, meu anjo. Que a paz de Deus nos encontre nas esquinas mais escuras. Desejo e peço a Oyá que carregue tudo o que for ruim pra longe, numa rajada de vento. Peço a Janaína que recolha as nossas lágrimas e que todo esse pranto vire água de mar. Que Jorge nos fortaleça porque a peleja é dura e a peleja não espera a gente se preparar. Eu estou recorrendo às minhas crenças pra não cair de joelhos no caco de vidro, pai, e te peço que mantenha a firmeza e que proteja sua cabeça. Eu rezo por você. Eu rezo por nós. Eu vou te ver logo. Prometo. Queria ouvir sua voz, mas vai ficar pra amanhã. Dorme em paz. Dorme, mas acorda. Acorda, tá? Não esquece de acordar. Te amo muito.

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4 thoughts on “Pai”

  1. J vi Vc tão perto de mim… num fluir gostoso de frases e sentir.
    Fui logo querendo saber mais desse encantamento sem fim só pra poder dizer, grato por tudo.
    Sutilezas, esmero, um cuidar amplo e irrestrito a cada instante.
    Abcs

    1. Oi, Luiz, tudo bom? A gente se conheceu? Eu não reconheci pelo e-mail (desculpe!), mas foi o que eu entendi pelo que você comentou.
      Muito obrigado pelo carinho, pela lindeza e pelo comentário. Apareça por aí!

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