Remendando

Das coisas que eu nunca esqueci na minha vida: a primeira vez em tomei um ônibus numa cidade desconhecida, vi milhares de rostos novos e me apaixonei pelo breu e pela fumaça; o momento em que eu, com o peito cheio de sentimentos conflitantes, me vi debaixo do céu mais lindo do mundo, na avenida mais barulhenta do mundo; o peso das patinhas frágeis do meu falecido cachorro, escondidinho no banheiro da minha avó, querendo dizer adeus sem perturbar ninguém – e a maciez dos pelos pretinhos debaixo dos meus lábios trêmulos enquanto eu dizia que ele podia ir e que eu o amaria pra sempre (e essa promessa eu nunca quebrei); a mistura encantadora de sotaques daquela cidadezinha do interior; os nove mil quilômetros de desejo; a primeira vez que eu li um poema do Augusto dos Anjos e entendi que a gente é só matéria e entulho e o quanto eu chorei quando descobri vivendo que, bem, é exatamente isso; o dia em que eu soube que o meu tio havia morrido – e o fato de eu ter sonhado com o avião que ele pilotava entrando debaixo da terra na noite em que ele se foi; os olhos cheios d’água do meu pai na minha formatura, e o abraço que ele me ofereceu naquele dia; a descoberta da minha fé e a paixão que eu adquiri pelo que eu não vejo; o barulho do mar quando eu percebi que água salgada era quase um exorcismo; a primeira vez em que eu subi no palco e descobri que queria morrer lá em cima; a ira, a revolta, o ódio imenso que eu nutri por tudo o que me rodeava quando recebi os meus exames e me emputeci com o meu corpo que sempre gostou de me sabotar; o cheiro da pele da pessoa que eu mais amei na vida; o mergulho para dentro de mim na segunda dose de Ayahuasca e o sussurrar dos juncos (e os caboclos que me diziam que eu era parte de tudo, que eu também era filha da força criadora e que toda cura é um processo); o dia em que eu descobri que meus amigos, até mesmo os muito jovens e cheios de vida, podem morrer em acidentes de carro numa terça-feira nublada; os olhos mais azuis que eu já vi na vida e a voz rouca de sotaque – um céu cheio de estrelas (que agora estão lá num outro continente); os beijos de um filhotinho que eu abriguei em meus braços e na minha casa por algumas semanas; o passeio pelo centro na noite em que eu descobri que a nossa alma não é pequena e ri de satisfação; a dor deliciosa da minha primeira tatuagem e o sentimento de me salvar de mim mesma por alguns instantes; a passagem da Maria e a nossa dança descompassada – mea culpa – na cachoeira; o dia em que deixei de me importar com algumas trivialidades que antes me tiravam o sono; a voz dela me dizendo que era câncer; a mão doce da velhinha que me acudiu no ônibus e disse que eu deveria me acalmar porque ela sabia que logo algo bonito me daria a paz da qual eu precisava.
Ainda estou buscando a paz, senhora, mas agradeço. Estou aguardando pacientemente pelo dia em que vou poder me lembrar do exato instante em que ela se fez presente – e resolveu ficar.

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4 thoughts on “Remendando”

  1. Você me inspirou a escrever as coisas que eu nunca esqueci na vida… Estou amando te ler “Jota”… A cada texto posso sentir o que vc esparrama no papel… Vc se expressa muito bem. Que pessoa intensa! Mulher! Vc é demais. Obrigada por me proporcionar esses minutos de leitura, de sensações, o texto q diz do seu pai, fez com que eu entrasse na cena, eu assisti os seus desejos… Chorei! As vezes precisamos colocar o dedo na ferida para nos sentirmos vivas. N é? Te entendo. Boa semana!

    1. Que comentário delicioso, Jéssica, e que imensa gentileza a sua. Eu te agradeço muito pelo carinho e por ter me deixado um comentário – fazia tempo que eu não recebia nada por aqui e fazia tempo que eu não lia esse texto dos momentos que não esqueci. Acho que tenho coisas novas para colocar na lista (coisas boas e coisas muito tristes), mas quem é que não tem?
      Muito obrigada mesmo. Agradeço pela gostosura. ❤ Boa semana pra ti!

  2. Essas são as coisas que nunca vou esquecer na vida, q vc me inspirou!
    Deve ter vários erros, escrevi no bloco de notas do celular, mas quero compartilhar com vc.
    Um beijo Jota! 🙂

    Das coisas que eu nunca vou esquecer na vida

    Quando a minha irmã pedia que eu cantasse dont speak do no doubt, com apenas 4 anos de idade e eu pensava que estava arrasando no english…
    Quando vi a minha irmã fumar pela primeira vez…
    Quando meu pai me carregava nos lmbros subindo as escadas e me colocava no sofá!
    O meu irmão do coração brincando comigo, me filmando com o braço enquanto eu era a GErry das spice girls, quando fazia montes de dominó e me ensina equação numérica… O brigadeiro dele… O melhor do mundo.
    Impossível esquecer quando eu imitava a minha irmã com a toalha na cabeça ou quando ela tirava de mim a tabela de verbos e pedia p eu conjugar o verbo ser…
    Meus tombos quando criança, as risadas dos amigos pq foi engraçado e os que achavam legal ver eu me machucar…
    O dia que o pai das minhas bests de infância me jogou na piscina, eu queria mto e a minha mãe n tinha deixado… Foi libertador!
    O dia que descobri as manchinhas pequenas no meu tornozelo, e elas foram aumentando, aumentando, aumentando… N vou esquecer a agonia que sentia ao vê-las, ao tocá-las… O receio de usar saia por causa dos comentários dos amiguinhos… A dor que sentia, e as noites em claro com a minha mãe enquanto eu tirava sangue ou tomava medicamento na veia.
    Da doçura e carinho que tive por meu primeiro amor de infância, e quando ele veio a minha festa de 9 anos de idade e me deu uma boneca… Vê-lo na porta de casa causou um reboliço no estômago, ficava nervosa, tímida ao mesmo tempo q queria me aparecer! Crianças…
    Do dia que cortei os cabelos acima dos ombros e fiz o segundo furo nas duas orelhas, me senti maravilhosa!
    O dia que me ajoelhei em frente a um altar de uma igreja, me desmanchei em lágrimas, senti algo muito forte e incrivelmente me levantei mais forte, mais serena…
    As semanas que eu pensava que dava pra mudar o mundo, que dava p consertar as vidas das pessoas, quando eu insistia muito e forte, e n me enxergava…
    A saudade incontrolável do meu melhor amigo… A tentativa de aceitar que tem que ser assim, ele longe, eu sem ele, sem novidades, risadas, giros circenses! Longe.
    A minha festa de 15 anos…
    O ultimo dia de aula no Leopoldo, e a sensação de que devia ter feito muito mais ali…
    O momento que eu percebi que estava tentando correr na direção contrária de uma correnteza forte, e aceitei alguns desejos…
    O meu primeiro beijo no Ibirapuera em uma noite bonita…
    As palavras doces de um ser que eu pensava que permaneceria doce, mas n foi assim, as palavras duras que me entristeceram tanto, o amargo da decepção.
    O dia que eu me apaixonei por aquela boca, por aquela voz, por aqueles olhos… Por ela.
    O dia que nos entregamos em um quarto com luz neon, o seu choro de emoção ao ler o poema que eu mesma escrevi…
    O exato momento em q o meu apelido fez sentido ao ver a tatuagem nas costas, q nunca visto antes… A surpresa!
    O momento em que entendi que tínhamos ligação de almas…
    O cheiro do meu grande amor que nunca saiu de mim.
    O medo quando chegava na casinha no meio do mato, por n ter ng forte para nos proteger… A sensibilidade do toque, o sentimento forte… O amor.
    A volta pela manhã com o vidro aberto gritando q me amaava! O quanto me amava! E o vento passando pelo meu rosto e os meus cabelos me fazendo sentir vida! Vida e amor a flor da pele!
    A despedida da faculdade…
    A noite que bebi muito vinho sozinha, chorei muito e fiz a ligação deitada no tapete da sala, e o cheiro do vinho impregnou em mim, e me fez estar mais perto, das nossas lembranças, dos nossos momentos, daquela pele macia e convidativa.
    O dia que decidi seguir a minha vida, com o coração cheio, a mente confusa…
    A paixão avassaladora por quem me foi gentil, me despiu e sumiu…
    A noite que comemos japa, eu resolvi a minha vida e reatamos a nossa vida a dois… E durou pouco, pq a mente voltou a atrapalhar.
    N consigo esquecer a noite que cheguei perto do portão e me deparei com o meu herói segurando um papelão com pó e um papel enrolado, inspirando aquele entorpecente… Bem ali, na minha frente enquanto eu olhava por aquele vidro do carro… Inerte. Até q minha presença fosse notada.
    O dia que decidi que n tem como te tirar de mim, pq foi a historia mais linda da minha vida e o amor é eterno, mesmo q n nos encaixemos na vida um do outro mais.
    N posso me esquecer de quando conheci a pessoa mais gentil que cuida tão bem de mim…
    O dia que o vi chorar pela primeira vez…
    O dia que descobri que sim, eu posso amar alguém tão maravilhoso como ele, e eu descobri isso de uma maneira linda!
    Ele é o meu amor possível, eu q nunca acreditei em impossível tenho o meu amor impossível, que é lindo também, e fica guardado em um potinho enfeitado e congelado no tempo, p nunca acabar.
    O abraço que ele me deu seguido das palavras: eu suporto perder qualquer pessoa, até os meus pais, mas vc n…
    O dia que me entreguei p ele, e decidi n deixar o passado me afetar mais.
    Quando eu joguei pela janela enquanto chovia, a minha aliança antiga…
    A madrugada que rasguei todas as lembranças físicas, foi um tipo de terapia… Aos poucos…
    Quando eu parei de me achar um louca.
    Isso n é verdade, eu me acho uma louca boa, rs n no todo.
    O dia que eu descobri que eu n era tão importante assim p pessoas q eu considerava mt mt mt importantes…
    N vou esquecer o toque dele, o olhar dele p mim… O cuidado…
    A tarde que minha mãe me disse que estava com o colesterol altíssimo e poderia infartar a qualquer momento…
    A manhã que acordei decidida a n me preocupar tanto com tudo, mas até hoje n consegui.
    Agora que admiti que sou inconstante, intensa e que sinto tudo verdadeiramente a flor da pele e a melhor maneira que tenho para expor é através da escrita…
    Continua…

    J.P.

    1. Que coisa louca é ler as suas coisas e não entender algumas, e imaginar outras, e criar complementos baseados na minha própria vida. Que coisa bonita é saber que tenho parte nisso de alguma forma (e que orgulho e felicidade imensos isso me traz). Continue escrevendo, continue se jogando, continue lembrando! Enquanto a gente lembrar, tá tudo bem.
      Obrigada pela lindeza. Fique bem. Estamos por aqui!

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