A tal da modernidade líquida

Eu a peguei pelos cabelos e puxei para trás, tentando manter a sua cabeça para fora da privada. Sem controle, a coitada parecia prestes a chafurdar na poça azeda de vinho tinto, espetinhos de queijo e remédio para dor de estômago. Com a boca entreaberta, balbuciava e babava, babava, babava – que quadro aterrador você é, minha amiga!, eu lhe disse. Ela soluçou e esfregou o rosto com as mangas do casaco que havia roubado de mim. Brinquei então: cheio de vômito, urgh, não quero mais, não. Pode ficar pra você.
 
Começou a Helena a monologar:
 
A tal da modernidade líquida é mentira pra você? Pra mim é real. Real mesmo. Volta e meia conheço gente que fala o nome, deseja boa noite e tenta enfiar a mão por dentro da minha calça – assim, sem uma conversinha mansa, sem um drink, sem um canudinho mordido pra fazer charme. Tô bem longe de ser conservadora, mas como que a gente se desumanizou assim? Disse minha amiga e eu concordo que olha, é uma espécie de obsolescência programada, mas só que com gente. Eu tenho prazo de validade, você tem prazo de validade. Na verdade, a gente só vale até algo melhor dobrar a esquina. Tem gente que não tá minimamente interessada no que a gente tem a dizer, mesmo, e nem é porque a gente é chata pra caralho – é porque tem concorrência e essa concorrência é desleal. Ninguém que se ame desesperadamente desse jeito consegue prestar atenção nas palavras de outra pessoa. É a praga da cultura da individuação. É a sociedade que nos diz que nós não somos parte de uma linha de produção, que somos quase sagrados. Não somos nada disso. É maquininha atrás de maquininha, você percebe?
 
Ajudei-a a se colocar de pé. Helena cambaleou como se quisesse dançar e as minhas mãos, firmes em seus quadris estreitos, a impediram de bater a testa no mármore da pia. Helena, por favor, sem rachar a cabeça – imagina a gente te levando pro pronto-socorro nesse estado? Você não tem filtro e desmaia se vê sangue, imagina eu te carregando que nem um saco de batata rua afora.
 
(É maquininha atrás de maquininha, você percebe?)
 
Continuou ela depois de lavar as mãos e encher a boca de Listerine:
 
É igual àquele filme do Chaplin, eu não tô de sacanagem. É apertar o parafusinho e depois outro e outro e dá-lhe parafusinho até a hora que a gente vira um sistema pronto para apertar todos os dezessete milhões de parafusinhos que virão. Já pensou que a gente aplica isso nas nossas relações? Dá aqui, come ali, dá aqui, come ali e a gente não lembra apelido, não lembra idade, não sabe banda favorita, não sabe se gosta de azul, não sabe a cor do olho, se tem alergia a laticínio, se tem tesão na protagonista daquele filme do espanhol das cores fortes lá – porra, quem não tem, mas deve haver gente que não tem e nós nunca perguntamos. A gente não conhece mais nada porque só quer falar de si mesmo o tempo inteiro nessa droga. Eu, eu, eu. Um dia você, mas só se eu puder usar você pra mostrar que eu sou mais eu.
 
Caminhei com ela de volta ao quarto. Sentei-a na cama, afaguei seus cabelos, ajudei-a a retirar o casaco sujo. Joguei-o na pilha de roupas que encontrariam abrigo na máquina de lavar no dia seguinte e, com dificuldade (porque ela não parava de se mexer e gesticular, ainda tentando se agarrar à realidade), fiz com que se deitasse. Helena pegou minha mão e beijou.
 
Disse assim:
 
Cê não cansa de mim, não? Fico preocupada – o que vai ser de mim quando a opção melhor virar a esquina, hein? A gente não tá aqui porque tá sempre pensando no próximo. Sabe que tá um boom de DST do cacete nessa cidade, né? Vou me mudar pro interior. Não dá mais pra mim, não. A gente transa por transar, goza mal e porcamente, tá sempre sonhando com o que vem amanhã, vai temperando nosso ego com a ideia de que temos um furor invejável, que nós somos ótimos e superiores e viramos ou número na fila do SUS ou estatística mesmo e ninguém, ninguém se importa.
 
Helena fechou os olhos depois disso e dormiu. Velei seu sono, afoita e aflita. Semanas depois, eu ainda a ouço falar na minha cabeça (e, como ela, tento fechar os olhos e dormir. Sem sucesso, no entanto).
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