E foram 25.

Decidi abrir as portas depois de anos e anos e anos. Desarrumei as gavetas, derrubei todos os livros da estante, botei fogo nas anotações que guardei por tanto tanto tempo (e pra quê, me pergunto, se cada linha me fazia sangrar e eu odiava cada segundo daquela literatura de quinta que nunca me deu gozo, só vontade de enfiar as unhas nos globos oculares e arrancá-los com violência bruta), abri as janelas e gritei, gritei alto o suficiente para fazer São Paulo inteirinha, cada vez mais cinza, cada vez mais musgo, estremecer do primeiro ao vigésimo octogésimo quinto décimo sexto nono andar.
Puxei de volta o ar para os pulmões, enchendo de veneno o meu corpo largo. Há morte em cada inspiração, mas não há problema – tudo que se ama morre, tudo que se come mata, tudo que se vive arranca pedaço e deixa buraco, então deixa, deixa estar. Tudo fica mais fácil quando se compreende a inevitabilidade dos fatos e não há maior afago e prova de amor pela vida do que entender que ela é vento de praia, desses que sopram, sopram e acabam por se perder no horizonte.
Às vezes vejo barcos na linha do infinito e penso que, a qualquer minuto, uma onda súbita pode reduzi-los a pedaços de madeira quebrada misturadas a tripas de marujo surpreso. Deve ser doce morrer no mar, ainda que morrer não me pareça uma das coisas mais aprazíveis neste momento. Esta percepção, por si só, é uma pequena vitória. Relembrá-la faz com que o peito se expanda e, antes que eu perceba, volto a gritar lá pelas duas e meia ou três e quinze da manhã. Faz dois dias que eu fiz aniversário. Agora são vinte e cinco a mais, mas meu cérebro irônico me diz que são vinte e cinco a menos. Li uma frase que dizia que estar neste mundo é entender que um dia não se estará mais neste mundo e isso é tão gostosamente cruel que volta e meia ainda rio. Um riso meio frouxo, meio engasgado, mas com ares de riso e é isso que tem importância.
Passei a tarde do meu aniversário arrancando coisas de dentro dos meus armários. Cogitei seriamente pegar uma tesoura e destruir o meu cabelo, só pelo prazer de vê-lo se tornar pó e ruína diante de mim. Meus ímpetos de auto-destruição seguem fortes, mas hoje, neste um quarto de século vivido, compreendo que não entender porque se está aqui e querer lutar e querer brigar e querer desistir e voltar atrás e seguir nesta sequência de repetições é prova cabal de que se quer algo mais. Respirar não é o bastante a essa altura do jogo. Eu não estou preparada ainda para o all in. Sabe-se lá o que me espera nas brumas, lá depois do céu turquesa e dos barcos que sobrevivem. Feliz aniversário pra mim.

(Eu tô feliz, menina. Eu não tô querendo mais nada agora. Só tô viva. Isso não é demais?)

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