Da noite em que meu pai morreu

Quando meu pai morreu, eu encarei o corpo dele por vários, vários minutos. Havia um “tudo bem, pai, pode parar de fingir agora — para!” entalado na minha garganta e ele não saiu. Ele ficou lá. Eu sabia que não havia qualquer razão para fingir que, por algum motivo, meu velhinho abriria os olhos e começaria a rir.
Meu pai se fingiu de morto muitas vezes.
Isso era uma espécie de diversão pra ele na época em que achava que estava saudável.
Quando ficou doente, a graça sumiu.
Ver meu pai morto matou algo em mim que eu acho que nunca vou conseguir explicar o que é. Às vezes eu falo dele com calma e naturalidade e brinco, faço piada, digo que “fumava que nem um louco desde os 13 anos e não parou nem quando descobriu o câncer — coitado, meu pai sempre foi teimoso demais” e xingo, xingo muito porque na verdade eu não me conformo. Ninguém que morre aos 54 merece ter a sua passagem trágica e prematura tratada como algo natural. Não é normal. Nunca será.
Eu levantei segundos antes da partida dele porque o ouvi pedir água. Fui até lá e dei. Acho que dei. Honestamente, eu não lembro direito. Eu estava deitada, havia cochilado, então acordei e olhei para ele e vi seus olhos arregalados e meu coração, que julgava já estar moído, pisoteado, desgraçado de todas as formas possíveis, descobriu novos jeitos de estilhaçar naquele instante. Algumas imagens não são imagens reais, mas imagens que eu criei para não lembrar direito daquele rosto pálido, daquelas pálpebras pesadas, daqueles olheiras. Aquele corpo todo não era o meu pai. Meu pai sempre foi muito maior do que tudo aquilo e sempre será. Sempre será.
Eu não consigo esquecer daqueles olhos.
Eu não consigo.
Tem dia que eu não penso nisso, mas quando eu penso, eu não consigo dormir. Eu não consigo comer. Eu só quero reverter o tempo, reconstruir as xícaras partidas no chão da casa, desamontoar as células que fizeram os rins dele pesados, podres, duros como pedra. Eles pesavam de verdade. Estavam tão grandes quando abriram a barriga do meu pai que chegaram a assustar os médicos. Como abriram a barriga do meu pai, meu Deus? Como dormir sabendo que abriram a barriga do meu pai? Existem dores e existem coisas abomináveis, inomináveis, feitas para jamais permitir que sejamos aquilos que fomos antes delas. Saber que abriram a barriga dele — na verdade, o corte começava nas costas, passava pela cintura estreita e parava na barriga — nunca será normal. Eu não vou naturalizar nada. Eu não consigo.
Eu não consigo me perdoar por não lembrar direito o que aconteceu naquela noite, na última noite.
Eu acho que meu pai pediu água e eu, meio tonta, fui até lá. Eu já havia levantado umas duas ou três ou quatro vezes e já não sabia mais se estava levantando por mim ou por ele. Eu estava exausta. Eu estava apavorada e eu estava com raiva, mas não era raiva dele. Eu estava tão absolutamente puta quanto eu estou agora — não, eu estava menos. Não existe estar mais puta do que eu estou agora.
Eu acho que a minha cabeça está apagando os detalhes pouco a pouco porque, quando eu me esforço para pensar e remontar e rememorar, eu termino engolindo um Rivotril. Talvez este seja o meu corpo me dizendo que eu não devo pensar.
Eu não sei se eu dei água. Eu olhei para ele e aqueles olhos quase me levaram junto para o que viria depois. Deus sabe como eu espero que ele esteja deitado em um jardim lindo, meio dormindo e meio acordado, sem pranto, sem cicatriz, sem as mãos espalmadas na altura do cóccix pra tentar se mexer sem gemer. Aqueles olhos não eram os olhos do meu pai.
Ele não me deixava mais tocar direito nele nos outros dias porque tudo era dor. Eu queria abraçá-lo tanto, pedir tanto para que ele não fosse embora, mas às vezes até tocar nas mãos dele fazia com que ele demonstrasse desconforto. Eu queria abraçá-lo, beijá-lo no rosto, dizer tantas e tantas coisas e, quando eu tentei, ele ergueu o braço fino, machucado de pontos e agulhas, e me proibiu de continuar. Este silêncio vai morrer comigo. O meu silêncio está me matando.
Eu não sei se ele não queria ter certeza de que estava morrendo. Eu não queria dizer para ele que ele estava — para mim, ele não estava. Era um momento, uma hora qualquer. Haveria qualquer milagre de Deus para acontecer e parar tudo na hora do adeus. Para reverter o tempo, reconstruir as xícaras quebradas no chão da casa, para desamontoar as células que fizeram os rins dele pesados, podres, duros como pedra. Haveria qualquer milagre para me impedir de ver aqueles olhos semi-mortos, dos quais eu não consigo me esquecer.
Não aconteceu milagre nenhum.
Aquelas pupilas aconteceram.
Havia uma lágrima ao lado do nariz do meu pai. Quando jogaram o pano branco sobre ele, e eu sei disso porque estava lá e disso eu me lembro bem, a lágrima foi pressionada contra o tecido e ficou visível. Ele começou a chorar antes de mim, parece, e eu quero acreditar que ele chorou porque viu algo estonteamente lindo no momento em que tudo mais acabou.
Eu não quero acreditar que acabou.
Eu não vou acreditar que acabou.
Aqueles olhos sabiam do fim. Aqueles olhos temiam o fim. Mas ele não morreu de olhos abertos. Ele estava com a boca entreaberta e tinha uma lágrima ao lado do nariz, quase se aproximando da bochecha seca pela doença. Sua expressão era calma, eu tento me convencer. Não sei se era mesmo, mas para mim, sim. Todo o resto, inclusive eu, é só borrão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s