Ode a Sarah Kane

escuta o barulho da porta Sarah escuta antes de apertar o nó
tem gente lá fora
tem vida lá fora há de ter amanhã e depois também

ouve o som da minha mão forte na madeira, ignora o sangue que você vê escorrer grosso de um punho que deveria estar aberto
acode
acorde Sarah

não foge. escuta. eu também espero que passe.
tenho medo de tudo e estou tentando.
às vezes eu falo, às vezes é a química quem diz
eu não acho isso bonito não

eu acho é DECADENTE
demodê pra caralho mesmo

e eu não quero mais sentir tudo o que vem com essa desestrutura não

eu também sinto que o futuro é sem esperança
mas eu não quero sentir
eu também estou cheia e insatisfeita com tudo
mas isso é coisa que vai ter que ir
eu também sou culpada, estou sendo punida
mas eu não sou culpada porra nenhuma

o que é que eu dou pros meus amigos pra eles me apoiarem tanto
por que é que eles me dão tanto

eu. não. sei.

mas eu quero dar a eles muita coisa nem que seja só pra pedir perdão
porque eu não consigo não ser eu

e eu peço desculpas
eu peço enormes e gordas necessárias desculpas
eu não queria
eu não queria

ouve Sarah que eu também não sei te dar respostas

mas você me dói em partes do corpo
que eu desconheço

e eu não quero ver e eu não quero sentir porque eu
também assim como você não entendo o que é ficar feliz por muito tempo.

mas deus sabe que tudo o que eu quero na vida é achar felicidade
deus sabe que meu sonho já foi ser alienada de mim MAS
eu não venço a guerra se desisto dela
eu me nego a ser prisioneira de mim
eu me nego a ser prisioneira de mim

chega de contar a história do mundo em lágrimas
eu quero contar em orgasmos e risadas e versos e beijos e em fumaça em luzes coloridas em tudo que não é sangue grosso escorrendo de um punho fechado

Sarah
Sarah
Sarah
Sarah
Sarah?

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Da noite em que meu pai morreu

Quando meu pai morreu, eu encarei o corpo dele por vários, vários minutos. Havia um “tudo bem, pai, pode parar de fingir agora — para!” entalado na minha garganta e ele não saiu. Ele ficou lá. Eu sabia que não havia qualquer razão para fingir que, por algum motivo, meu velhinho abriria os olhos e começaria a rir.
Meu pai se fingiu de morto muitas vezes.
Isso era uma espécie de diversão pra ele na época em que achava que estava saudável.
Quando ficou doente, a graça sumiu.
Ver meu pai morto matou algo em mim que eu acho que nunca vou conseguir explicar o que é. Às vezes eu falo dele com calma e naturalidade e brinco, faço piada, digo que “fumava que nem um louco desde os 13 anos e não parou nem quando descobriu o câncer — coitado, meu pai sempre foi teimoso demais” e xingo, xingo muito porque na verdade eu não me conformo. Ninguém que morre aos 54 merece ter a sua passagem trágica e prematura tratada como algo natural. Não é normal. Nunca será.
Eu levantei segundos antes da partida dele porque o ouvi pedir água. Fui até lá e dei. Acho que dei. Honestamente, eu não lembro direito. Eu estava deitada, havia cochilado, então acordei e olhei para ele e vi seus olhos arregalados e meu coração, que julgava já estar moído, pisoteado, desgraçado de todas as formas possíveis, descobriu novos jeitos de estilhaçar naquele instante. Algumas imagens não são imagens reais, mas imagens que eu criei para não lembrar direito daquele rosto pálido, daquelas pálpebras pesadas, daqueles olheiras. Aquele corpo todo não era o meu pai. Meu pai sempre foi muito maior do que tudo aquilo e sempre será. Sempre será.
Eu não consigo esquecer daqueles olhos.
Eu não consigo.
Tem dia que eu não penso nisso, mas quando eu penso, eu não consigo dormir. Eu não consigo comer. Eu só quero reverter o tempo, reconstruir as xícaras partidas no chão da casa, desamontoar as células que fizeram os rins dele pesados, podres, duros como pedra. Eles pesavam de verdade. Estavam tão grandes quando abriram a barriga do meu pai que chegaram a assustar os médicos. Como abriram a barriga do meu pai, meu Deus? Como dormir sabendo que abriram a barriga do meu pai? Existem dores e existem coisas abomináveis, inomináveis, feitas para jamais permitir que sejamos aquilos que fomos antes delas. Saber que abriram a barriga dele — na verdade, o corte começava nas costas, passava pela cintura estreita e parava na barriga — nunca será normal. Eu não vou naturalizar nada. Eu não consigo.
Eu não consigo me perdoar por não lembrar direito o que aconteceu naquela noite, na última noite.
Eu acho que meu pai pediu água e eu, meio tonta, fui até lá. Eu já havia levantado umas duas ou três ou quatro vezes e já não sabia mais se estava levantando por mim ou por ele. Eu estava exausta. Eu estava apavorada e eu estava com raiva, mas não era raiva dele. Eu estava tão absolutamente puta quanto eu estou agora — não, eu estava menos. Não existe estar mais puta do que eu estou agora.
Eu acho que a minha cabeça está apagando os detalhes pouco a pouco porque, quando eu me esforço para pensar e remontar e rememorar, eu termino engolindo um Rivotril. Talvez este seja o meu corpo me dizendo que eu não devo pensar.
Eu não sei se eu dei água. Eu olhei para ele e aqueles olhos quase me levaram junto para o que viria depois. Deus sabe como eu espero que ele esteja deitado em um jardim lindo, meio dormindo e meio acordado, sem pranto, sem cicatriz, sem as mãos espalmadas na altura do cóccix pra tentar se mexer sem gemer. Aqueles olhos não eram os olhos do meu pai.
Ele não me deixava mais tocar direito nele nos outros dias porque tudo era dor. Eu queria abraçá-lo tanto, pedir tanto para que ele não fosse embora, mas às vezes até tocar nas mãos dele fazia com que ele demonstrasse desconforto. Eu queria abraçá-lo, beijá-lo no rosto, dizer tantas e tantas coisas e, quando eu tentei, ele ergueu o braço fino, machucado de pontos e agulhas, e me proibiu de continuar. Este silêncio vai morrer comigo. O meu silêncio está me matando.
Eu não sei se ele não queria ter certeza de que estava morrendo. Eu não queria dizer para ele que ele estava — para mim, ele não estava. Era um momento, uma hora qualquer. Haveria qualquer milagre de Deus para acontecer e parar tudo na hora do adeus. Para reverter o tempo, reconstruir as xícaras quebradas no chão da casa, para desamontoar as células que fizeram os rins dele pesados, podres, duros como pedra. Haveria qualquer milagre para me impedir de ver aqueles olhos semi-mortos, dos quais eu não consigo me esquecer.
Não aconteceu milagre nenhum.
Aquelas pupilas aconteceram.
Havia uma lágrima ao lado do nariz do meu pai. Quando jogaram o pano branco sobre ele, e eu sei disso porque estava lá e disso eu me lembro bem, a lágrima foi pressionada contra o tecido e ficou visível. Ele começou a chorar antes de mim, parece, e eu quero acreditar que ele chorou porque viu algo estonteamente lindo no momento em que tudo mais acabou.
Eu não quero acreditar que acabou.
Eu não vou acreditar que acabou.
Aqueles olhos sabiam do fim. Aqueles olhos temiam o fim. Mas ele não morreu de olhos abertos. Ele estava com a boca entreaberta e tinha uma lágrima ao lado do nariz, quase se aproximando da bochecha seca pela doença. Sua expressão era calma, eu tento me convencer. Não sei se era mesmo, mas para mim, sim. Todo o resto, inclusive eu, é só borrão.

E foram 25.

Decidi abrir as portas depois de anos e anos e anos. Desarrumei as gavetas, derrubei todos os livros da estante, botei fogo nas anotações que guardei por tanto tanto tempo (e pra quê, me pergunto, se cada linha me fazia sangrar e eu odiava cada segundo daquela literatura de quinta que nunca me deu gozo, só vontade de enfiar as unhas nos globos oculares e arrancá-los com violência bruta), abri as janelas e gritei, gritei alto o suficiente para fazer São Paulo inteirinha, cada vez mais cinza, cada vez mais musgo, estremecer do primeiro ao vigésimo octogésimo quinto décimo sexto nono andar.
Puxei de volta o ar para os pulmões, enchendo de veneno o meu corpo largo. Há morte em cada inspiração, mas não há problema – tudo que se ama morre, tudo que se come mata, tudo que se vive arranca pedaço e deixa buraco, então deixa, deixa estar. Tudo fica mais fácil quando se compreende a inevitabilidade dos fatos e não há maior afago e prova de amor pela vida do que entender que ela é vento de praia, desses que sopram, sopram e acabam por se perder no horizonte.
Às vezes vejo barcos na linha do infinito e penso que, a qualquer minuto, uma onda súbita pode reduzi-los a pedaços de madeira quebrada misturadas a tripas de marujo surpreso. Deve ser doce morrer no mar, ainda que morrer não me pareça uma das coisas mais aprazíveis neste momento. Esta percepção, por si só, é uma pequena vitória. Relembrá-la faz com que o peito se expanda e, antes que eu perceba, volto a gritar lá pelas duas e meia ou três e quinze da manhã. Faz dois dias que eu fiz aniversário. Agora são vinte e cinco a mais, mas meu cérebro irônico me diz que são vinte e cinco a menos. Li uma frase que dizia que estar neste mundo é entender que um dia não se estará mais neste mundo e isso é tão gostosamente cruel que volta e meia ainda rio. Um riso meio frouxo, meio engasgado, mas com ares de riso e é isso que tem importância.
Passei a tarde do meu aniversário arrancando coisas de dentro dos meus armários. Cogitei seriamente pegar uma tesoura e destruir o meu cabelo, só pelo prazer de vê-lo se tornar pó e ruína diante de mim. Meus ímpetos de auto-destruição seguem fortes, mas hoje, neste um quarto de século vivido, compreendo que não entender porque se está aqui e querer lutar e querer brigar e querer desistir e voltar atrás e seguir nesta sequência de repetições é prova cabal de que se quer algo mais. Respirar não é o bastante a essa altura do jogo. Eu não estou preparada ainda para o all in. Sabe-se lá o que me espera nas brumas, lá depois do céu turquesa e dos barcos que sobrevivem. Feliz aniversário pra mim.

(Eu tô feliz, menina. Eu não tô querendo mais nada agora. Só tô viva. Isso não é demais?)

A tal da modernidade líquida

Eu a peguei pelos cabelos e puxei para trás, tentando manter a sua cabeça para fora da privada. Sem controle, a coitada parecia prestes a chafurdar na poça azeda de vinho tinto, espetinhos de queijo e remédio para dor de estômago. Com a boca entreaberta, balbuciava e babava, babava, babava – que quadro aterrador você é, minha amiga!, eu lhe disse. Ela soluçou e esfregou o rosto com as mangas do casaco que havia roubado de mim. Brinquei então: cheio de vômito, urgh, não quero mais, não. Pode ficar pra você.
 
Começou a Helena a monologar:
 
A tal da modernidade líquida é mentira pra você? Pra mim é real. Real mesmo. Volta e meia conheço gente que fala o nome, deseja boa noite e tenta enfiar a mão por dentro da minha calça – assim, sem uma conversinha mansa, sem um drink, sem um canudinho mordido pra fazer charme. Tô bem longe de ser conservadora, mas como que a gente se desumanizou assim? Disse minha amiga e eu concordo que olha, é uma espécie de obsolescência programada, mas só que com gente. Eu tenho prazo de validade, você tem prazo de validade. Na verdade, a gente só vale até algo melhor dobrar a esquina. Tem gente que não tá minimamente interessada no que a gente tem a dizer, mesmo, e nem é porque a gente é chata pra caralho – é porque tem concorrência e essa concorrência é desleal. Ninguém que se ame desesperadamente desse jeito consegue prestar atenção nas palavras de outra pessoa. É a praga da cultura da individuação. É a sociedade que nos diz que nós não somos parte de uma linha de produção, que somos quase sagrados. Não somos nada disso. É maquininha atrás de maquininha, você percebe?
 
Ajudei-a a se colocar de pé. Helena cambaleou como se quisesse dançar e as minhas mãos, firmes em seus quadris estreitos, a impediram de bater a testa no mármore da pia. Helena, por favor, sem rachar a cabeça – imagina a gente te levando pro pronto-socorro nesse estado? Você não tem filtro e desmaia se vê sangue, imagina eu te carregando que nem um saco de batata rua afora.
 
(É maquininha atrás de maquininha, você percebe?)
 
Continuou ela depois de lavar as mãos e encher a boca de Listerine:
 
É igual àquele filme do Chaplin, eu não tô de sacanagem. É apertar o parafusinho e depois outro e outro e dá-lhe parafusinho até a hora que a gente vira um sistema pronto para apertar todos os dezessete milhões de parafusinhos que virão. Já pensou que a gente aplica isso nas nossas relações? Dá aqui, come ali, dá aqui, come ali e a gente não lembra apelido, não lembra idade, não sabe banda favorita, não sabe se gosta de azul, não sabe a cor do olho, se tem alergia a laticínio, se tem tesão na protagonista daquele filme do espanhol das cores fortes lá – porra, quem não tem, mas deve haver gente que não tem e nós nunca perguntamos. A gente não conhece mais nada porque só quer falar de si mesmo o tempo inteiro nessa droga. Eu, eu, eu. Um dia você, mas só se eu puder usar você pra mostrar que eu sou mais eu.
 
Caminhei com ela de volta ao quarto. Sentei-a na cama, afaguei seus cabelos, ajudei-a a retirar o casaco sujo. Joguei-o na pilha de roupas que encontrariam abrigo na máquina de lavar no dia seguinte e, com dificuldade (porque ela não parava de se mexer e gesticular, ainda tentando se agarrar à realidade), fiz com que se deitasse. Helena pegou minha mão e beijou.
 
Disse assim:
 
Cê não cansa de mim, não? Fico preocupada – o que vai ser de mim quando a opção melhor virar a esquina, hein? A gente não tá aqui porque tá sempre pensando no próximo. Sabe que tá um boom de DST do cacete nessa cidade, né? Vou me mudar pro interior. Não dá mais pra mim, não. A gente transa por transar, goza mal e porcamente, tá sempre sonhando com o que vem amanhã, vai temperando nosso ego com a ideia de que temos um furor invejável, que nós somos ótimos e superiores e viramos ou número na fila do SUS ou estatística mesmo e ninguém, ninguém se importa.
 
Helena fechou os olhos depois disso e dormiu. Velei seu sono, afoita e aflita. Semanas depois, eu ainda a ouço falar na minha cabeça (e, como ela, tento fechar os olhos e dormir. Sem sucesso, no entanto).

Mudanças a caminho

Oi!

Períodos complicados me tiraram daqui, mas estou, pouco a pouco, tentando encontrar o meu caminho de volta. O Flores do Mal, que é meu bebê há uns cinco ou seis anos, ficou bem desatualizado nos últimos tempos, mas possivelmente se tornará um site maior – um .com.br, quem diria – em breve.

Estamos a passinhos modestos, verdade, mas uma hora a coisa muda. Assim que o outro domínio surgir, esse daqui deixará de ser atualizado. Ficará online, entretanto, para consulta e arquivo. 🙂

Beijos,

J.

Remendando

Das coisas que eu nunca esqueci na minha vida: a primeira vez em tomei um ônibus numa cidade desconhecida, vi milhares de rostos novos e me apaixonei pelo breu e pela fumaça; o momento em que eu, com o peito cheio de sentimentos conflitantes, me vi debaixo do céu mais lindo do mundo, na avenida mais barulhenta do mundo; o peso das patinhas frágeis do meu falecido cachorro, escondidinho no banheiro da minha avó, querendo dizer adeus sem perturbar ninguém – e a maciez dos pelos pretinhos debaixo dos meus lábios trêmulos enquanto eu dizia que ele podia ir e que eu o amaria pra sempre (e essa promessa eu nunca quebrei); a mistura encantadora de sotaques daquela cidadezinha do interior; os nove mil quilômetros de desejo; a primeira vez que eu li um poema do Augusto dos Anjos e entendi que a gente é só matéria e entulho e o quanto eu chorei quando descobri vivendo que, bem, é exatamente isso; o dia em que eu soube que o meu tio havia morrido – e o fato de eu ter sonhado com o avião que ele pilotava entrando debaixo da terra na noite em que ele se foi; os olhos cheios d’água do meu pai na minha formatura, e o abraço que ele me ofereceu naquele dia; a descoberta da minha fé e a paixão que eu adquiri pelo que eu não vejo; o barulho do mar quando eu percebi que água salgada era quase um exorcismo; a primeira vez em que eu subi no palco e descobri que queria morrer lá em cima; a ira, a revolta, o ódio imenso que eu nutri por tudo o que me rodeava quando recebi os meus exames e me emputeci com o meu corpo que sempre gostou de me sabotar; o cheiro da pele da pessoa que eu mais amei na vida; o mergulho para dentro de mim na segunda dose de Ayahuasca e o sussurrar dos juncos (e os caboclos que me diziam que eu era parte de tudo, que eu também era filha da força criadora e que toda cura é um processo); o dia em que eu descobri que meus amigos, até mesmo os muito jovens e cheios de vida, podem morrer em acidentes de carro numa terça-feira nublada; os olhos mais azuis que eu já vi na vida e a voz rouca de sotaque – um céu cheio de estrelas (que agora estão lá num outro continente); os beijos de um filhotinho que eu abriguei em meus braços e na minha casa por algumas semanas; o passeio pelo centro na noite em que eu descobri que a nossa alma não é pequena e ri de satisfação; a dor deliciosa da minha primeira tatuagem e o sentimento de me salvar de mim mesma por alguns instantes; a passagem da Maria e a nossa dança descompassada – mea culpa – na cachoeira; o dia em que deixei de me importar com algumas trivialidades que antes me tiravam o sono; a voz dela me dizendo que era câncer; a mão doce da velhinha que me acudiu no ônibus e disse que eu deveria me acalmar porque ela sabia que logo algo bonito me daria a paz da qual eu precisava.
Ainda estou buscando a paz, senhora, mas agradeço. Estou aguardando pacientemente pelo dia em que vou poder me lembrar do exato instante em que ela se fez presente – e resolveu ficar.

Pai

Pai,
Vai dar uma da manhã e eu trabalho cedo amanhã, mas simplesmente não consigo dormir. Seu rosto cansado me vem à cabeça e mil pensamentos me atravancam o cérebro e eu não consigo pregar os olhos, descansar ou evitar essa chuva de frases perturbadas que inunda os meus neurônios. Pensei em te ligar, mas não quero acordar você. Sei que seu dia será difícil e comprido e você precisa, acima de todas as coisas, cuidar de você.
Eu queria acender um cigarro pra ver se a fumaça acalma esse tambor frenético no meu peito, mas não vou fazer isso porque parei de fumar. Admito que, de vez em quando, ainda roubo um trago aqui e ali, mas: parei. Juro. Parei porque me faz mal, porque me amarela os dentes, porque custa caro e porque sinto que é falta de respeito continuar fumando depois de todo o histórico que a nossa família tem com isso. Cigarro me acalma muito e sempre foi uma válvula de escape pra minha ansiedade, mas estou cuidando disso de outras formas. Tenho comido muito, por exemplo. Tenho roído unhas e procurado jeitos pequenos de me machucar pra ver se faço meu corpo funcionar um pouquinho melhor. Que apego a gente tem por aquilo que machuca a gente, né, pai? Eu herdei isso de você ou você aprendeu isso comigo? Essa resposta eu não tenho. Espero você me dizer, se estiver afim (ou se souber).
Eu amo tanto você que acho que vou vomitar se não te disser isso pessoalmente, e depressa. Eu sinto tanto a sua falta que choro nos bancos do fundo do ônibus que pego toda manhã e imagino que o destino dele é a casa onde você está. Eu queria te dar um abraço e pedir desculpas por todas as vezes em que não te fiz feliz, ou pelo fato de eu também ter uma personalidade combativa e, meu Deus, como a gente já se estranhou nessa vida. Tudo o que eu queria hoje era nunca ter brigado com você. Eu te amo tanto. Eu te quero tão bem, tão vivo, tão vivo. Não vai embora tão cedo, por favor. Faz um esforcinho pra gente ir pra Vegas jogar pôquer num cassino duvidoso e quebrar a banca. Faz um esforcinho pra gente beber numa rua movimentada, falando do mundo, dos sonhos, das coisas – e tudo isso sem fumar, porque a gente não precisa de cigarro. A gente precisa um do outro. A gente precisa de compreensão e amor e tolerância e respeito e fé. E eu tô me segurando na fé e no amor pra acreditar que logo estarei segurando as suas mãos e te mostrando a minha tatuagem nova e dizendo a verdade: ela foi feita pra você. Ela foi feita pra você, pra te dar força e ânimo na batalha e te mostrar que não existe ninguém nesse mundo que te adore e admire tanto quanto eu.
Fica. Eu imploro, fica. Não tô preparada para uma vida sem você. Se eu me faço de forte, é só porque eu preciso ser, mas eu não quero ser forte. Eu quero ser criança e ficar sentada no sofá, do seu lado, vendo um jogo de futebol que nunca me interessou (mas que hoje me parece a melhor coisa do mundo). Eu quero ser criança e ter você ao alcance da minha mão, rindo e falando besteira e comendo chocolate mesmo com a sua diabetes e me contando de tudo o que aconteceu quando você tinha a minha idade. Eu preciso de você. Acima de qualquer coisa que eu possa sonhar, o que eu mais quero agora é você bem. Não quero mais pensar em mim. Eu quero e preciso da sua companhia nesse caminho de pedras, e só o seu sorriso basta pra trajetória ficar menos doída. Como tá doendo. Como tá doendo. Eu queria que tudo isso parasse. Queria apertar um botão que me teletransportasse para uma manhã bonita, num dia claro, imaculado, tranquilo. Queria te ver na mesa do café da manhã, me cumprimentando com cara de sono e reclamando, reclamando, reclamando do despertador que te tirou da cama tão cedo e do trânsito desgraçado que você vai pegar até o centro da cidade. Eu queria ouvir seu lamento mal educado por horas. Eu queria ouvir de você qualquer coisa. Eu queria que você estivesse aqui. Como eu queria.
Eu te amo muito. Eu tô contigo e não abro. Vou te parafrasear pra me sentir por perto: que a sabedoria esteja sempre comigo. Que a sua sabedoria não te abandone nunca, meu anjo. Que a paz de Deus nos encontre nas esquinas mais escuras. Desejo e peço a Oyá que carregue tudo o que for ruim pra longe, numa rajada de vento. Peço a Janaína que recolha as nossas lágrimas e que todo esse pranto vire água de mar. Que Jorge nos fortaleça porque a peleja é dura e a peleja não espera a gente se preparar. Eu estou recorrendo às minhas crenças pra não cair de joelhos no caco de vidro, pai, e te peço que mantenha a firmeza e que proteja sua cabeça. Eu rezo por você. Eu rezo por nós. Eu vou te ver logo. Prometo. Queria ouvir sua voz, mas vai ficar pra amanhã. Dorme em paz. Dorme, mas acorda. Acorda, tá? Não esquece de acordar. Te amo muito.

Podia ter sido tão diferente, menina. Tão diferente. Se meus olhos tivessem te enquadrado numa outra vida – ou se os seus olhos, verdes de um jeito que não me parece humano, não se voltassem tão apaixonadamente para outra figura. Outra figura esbelta, de sorriso fácil, de ombros largos e músculos bem firmes. Outra figura que não sou eu e está tudo bem (porque olho para o lado e confirmo que foi mesmo uma boa escolha, e te falo isso com dor, mas com honestidade). Podia ter sido bonito porque tudo que é idealizado tem muita chance de dar certo, e você é perfeita dentro da situação que eu criei na minha cabeça e me diz tudo o que eu quero ouvir e se mexe como eu acho que você se mexeria e coça o seu narizinho pontudo com as unhas vermelhas e ri escandalosamente contra o seu guardanapo para espantar a vergonha e sacode os seus cabelos meio desbotados, afaga seus cachos sem vergonha de ser tão linda e eu – eu engasgo. Eu engasgo e olho para o chão e analiso as pedrinhas da calçada porque nem em divagação eu tenho o mínimo de postura. Sua desenvoltura me encanta e me emputece; eu tenho inveja da sua calma, do seu jeito, dos seus passos que parecem felinos. Você caminha pé por pé, traçando uma linha perfeita, com quadris que se movem como se você calculasse cada passo. Te diverte matar os passantes. Te diverte estalar pescoços. Você caminha em graça, em indócil graça, e eu só tropeço, borbulhando de nervoso, incapaz de me movimentar sem esbarrar nas pessoas, sem derrubar os vendedores, sem arrastar malas e mochilas e quase jogar no chão as criancinhas. Como podia ser diferente, mas não pode ser. Me conformo, entendo (ou quase); na verdade, acho que só aceito. Como não, não é mesmo?