Canção pra dizer adeus

Não era minha intenção fazer sair o pranto guardado
Empapar de sangue a ferida (que nem bem fez casca)
Não é do meu feitio despejar amores
Apenas lamúrias
Desculpa, eu. Desculpa.
Não queria ter chorado naquela noite
Foi mais forte que eu
Não queria ter manchado sua estante
Derrubado cerveja no colchão
Te olhado dormir por uma ou duas ou três horas a mais
Nem derrubado perfume nas suas coisas
Desculpa, eu – desculpa.
Se acordava bonita só porque dormia ao seu lado
Ou se me produzia silenciosamente no espelho do banheiro
Você nunca vai saber porque eu nunca vou contar
Se eu varava noites pensando em te ver
Porque havia ânsia nos seus olhos enevoados
E poesia na sua boca pequena
E delírio nos seus dedos de artista
E insanidade na sua cabeça pesada
E todos os sonhos do mundo no beijo que eu te dava
Porque eu tenho muitas faltas e muitos erros
E crio neologismos e exagero nas pausas
E faço promessas grandes pra ter motivos para ficar
E vocifero uma chuva de ofensas gratuitas
Quando me sinto nua ou contrariada ou amada demais
Porque eu tenho medo
E eu tenho medo de ficar sozinha e de homens na rua
E tenho medo de chuva de raios e de palhaços e de agulhas
E tenho medo de morrer, mas não vejo razão pra não fazê-lo
E eu tenho tudo isso mesmo, mas quando eu te beijava
Não tinha medo, não tinha dor, tinha beijo e tinha eu
E tinha você e o mundo que acabava em você
Desculpa, eu. Desculpa.
Se não lhe dei o colo que você precisava
Mas é o único colo que eu tenho
Você tomou tudo, quebrou tudo, pegou tudo
E eu dei
E logo não tinha mais nada
Te assobio no escuro do quarto
Saudosa do canto onde dormi
Por tantos finais de semana
Te saúdo em notas desafinadas
Porque voz embargada de choro não canta
Só lamenta
Só sangra
E me sangro, tentando extirpar você
Pouco a pouco, gota por gota
Até eu virar eu de novo

Escuta, moreno.

Escuta, moreno, alguma coisa aconteceu nos últimos meses e eu não consigo te explicar direito o que foi. Eu perdi o fio, eu perdi o tino, eu perdi aquela facilidade estranha que eu tinha de pegar nas mãos dos outros e abrir a boca e dizer tudo o que eu queria dizer, assim, numa puxada de ar só, metralhando minhas miudezas e estranhezas na cara de quem quer que fosse – eu deixei de falar. Hoje eu engasgo feio, eu troco as palavras, eu olho para o chão e me envergonho do meu léxico atrofiado e não conto, não deixo escapar, morro de boca fechada. Que mal isso me faz. Minha garganta que o diga. Acorda frequentemente inchada. Às vezes se enche de pus do dia para a noite e eu duvido que seja pela janela que esqueço aberta de vez em quando. Como a gente muda tanto assim em tão pouco tempo? Eu era tão mais minha, hoje eu tenho medo. Me analisa, moreno, me faz aquelas análises psicológicas cheias de vocábulos difíceis, me dá todas as doenças psicossomáticas do mundo, me entope de Bactrim pra garganta e Clonazepam pro cérebro, me dá um tapa bem dado pra me deixar muito puta e eu quebrar sua cara. Se você fizer sair de dentro o pior de mim, eu talvez ache o caminho de volta pra o melhor que eu deixei por aí. Sabe como é? Hoje me sinto um livro esquecido na estante. Ninguém me lê, ninguém me vira do avesso, ninguém me acha interessante ou me detesta ferozmente, é tudo silêncio, poeira e o amarelamento inevitável das partes que me fazem eu. Tô apodrecendo e observando e não tenho reação. Encaro. Acho natural, até, mas não é, menino, não pode ser. Não pode ser.

Sam

Riu ruidosamente, em parte pela minha cara engraçada, em parte pelo vinho subindo. Eu, deitada de barriga para cima, os olhos turvos, a boca entreaberta, analisava a inexistência das estrelas de São Paulo e pensava, pensava, pensava. Então me veio a pergunta: por que tão calada? E eu respondi logo a seguir alguma coisa mais ou menos assim: me veio essa vontade esquisita de escrever sobre esse momento e sobre o fato de não ter nada nesse céu e sobre essa noite que, como todas as noites, acabou acontecendo. Mas tudo é texto pra você? Sim, eles vêm do nada, serpenteando no meu cérebro nervoso, loucos para saírem de mim e virarem não uma coisa grandiosa, mas uma espécie de expurgo, de catarse, qualquer coisa assim. Mas tudo é texto pra você? Sim, tudo é texto pra mim, tudo vira poesia quando eu estou bem, despida das coisas, sentindo, vivenciando, corpo presente – e estar presente é tão difícil pra mim que eu comemoro quando isso acontece.

Confesso:
Preciso, não nego
Um afago
No peito, na alma
Um abraço
Que me arranque de mim
Pra eu me esquecer
Pra eu me deixar
Pra eu não ser
E virar um outro
Melhor, tranquilo
Mais feliz
Mais meu
A minha antítese
Viva

Linha vermelha adentro

O metrô demora consideravelmente às vinte e três e quarenta de um domingo. Ela troca de um pé para o outro, impaciente, incomodada, interiormente eufórica. O vento que bate no corpo dela faz com que se arrepie. Move as pernas uma contra a outra. Pernas. Aquelas outras pernas afastando as coxas dela. Aqueles dedos longos contra os cabelos que ela deixou de pintar faz tempo. A boca de corte tanto cruel quanto divino fazendo com que os olhos dela revirem nas órbitas, insana, nervosa, não sabendo se aquilo que vê, aquele sorriso torto, vem de um Botticelli ou de uma carranca. Ela morde a boca de batom vermelho, consternada por um instante. Sabe que não deve pensar demais. Não pode, não deve, mas quer – meu deus, como ela quer. Quer daquele jeito dela, lascivo, desengonçado, quase adolescente, quer morrer nos seus quereres. Quer porque quer, reverberando desejos debaixo da pele pálida, repetindo infinitamente seu coro de ais, de silvos, de libido trêmula. Sabe que não deve pensar, mas quer tanto. E não há para quem ligar. Olha para o metrô que chega. Caminha para dentro dele como quem gostaria de estar entrando na casa de um amante, mas sabe que o destino é outro. A porta se fecha e ela olha para os lados. Olha. Olha. E passa vontade com o trem que passa na estação seguinte, cada vez mais perto de onde ela não queria estar.

Nesses dias em que eu estou triste e me sinto virada do avesso, eu sento em silêncio no quarto, acendo um incenso e digo pra mim mesma que tudo vai mudar. Não sei quando, não sei como, só sei que tudo vai mudar. Hoje pensei em você o dia inteiro. Varri o meu quarto, limpei minhas tralhas, me despedi de mil coisas que eu guardo só por guardar. Coisas minhas, insossas como eu, perdidas nas gavetas, amassadas nos cantos, abarrotadas de entrelinhas, poeirentas. Coisas minhas, como eu, sem o afago que esperavam tanto (como eu esperei).
Nesses dias em que eu estou triste e tenho essa sensação de tripas entrelaçadas na boca do estômago, eu cantarolo pra mim canções que não existem, com letras que eu gostaria que alguém tivesse escrito, só pra eu não me sentir tão só. E no bailar das palavras que são minhas, eu não me sinto eu. Eu me sinto outra. E essa outra eu amo, mas ela nunca fica muito tempo.
Hoje pensei em você o dia inteiro. Queria que a recíproca fosse verdadeira, mas não é. Então eu sento em silêncio no quarto, acendo um incenso e digo pra mim mesma que tudo vai mudar. Já está mudando. 

Somos instantes

Sabe que te imagino bem com os cabelos maiores, crescidos já quase no meio das costas, bem cacheados, bem animalescos e atrás de você uma selva de pedra que não é São Paulo e não é Rio de Janeiro e não é nenhuma dessas coisas que você já cansou de ver por aqui e eu fico absorta nessa imagem de uma nova você, uma nova pessoa, uma nova Gabriela, de unhas ainda curtas, de vestido de bolinha e casaco listrado e sapatos de salto comprados num brechó de Praga e de meias rasgadas porque você, assim como eu, gosta mesmo é do estrago e não tem problema nenhum em afirmar, berrar, analisar, demonstrar, vivenciar o caos e lembrar-se e lembrar-me e mostrar pro mundo e pra quem mais quiser ver que só se sabe ser alguém quando se vai até o fundo do poço e volta – e você sabe que foi e voltou e tudo o que você é agora é muito bonito e muito inteiro e muito volátil (eu gosto dessa palavra, mas te digo sinceramente que nem sei o porquê), mas não se parece nada com o que você será daqui a seis ou sete ou dez meses, que vai ser o tempo que você vai ficar longe e descobrir universos e situações e cidadelas magníficas no meio do nada e casas abandonadas e cemitérios (me fotografa uns cemitérios, você sabe como eu gosto deles) e vai provar mil comidas com ingredientes que não estão disponíveis deste lado do mapa e vai sentir uma saudade danada de leite condensado e de brigadeiro mas vai descobrir doces portugueses e iguarias que custam centavos de euro na República Tcheca e vai se apaixonar por mil estradas e mil músicas e vai ter histórias lindas e histórias horríveis e vai sentir muita falta de quem te ama daqui, mas vai descobrir que, sendo como você é, não vai te faltar gente pra te amar em qualquer lugar do globo. Sabe que te imagino voltando outra, limpa, nova, inteira, disposta, mas uma folha em branco pra uma vida nova depois de você mesma? Você não sabe como eu te quero bem. Não sabe como te desejo felicidades. O nome do princípio ativo é Passiflora Incarnata, te digo só pra você lembrar que não faz mal tomar um ou dois comprimidos no avião porque você, assim como eu, também tem cagaço de avião. O ar reciclado não é tão ruim assim, entretanto, a gente é que é extremista demais. Mas quem vive nas pontas sempre vive mais (embora às vezes corra o risco de viver menos). Amor e felicidade, Anne, amor e felicidade. Evoé.

Da musa de carne e osso – Parte I

Alice estava sentada na janela. Fumava um cigarro de cheiro horrível. Acho que era de canela. Eu nunca gostei de canela. Suspirei e lancei um olhar incomodado, mas minha musa não percebeu. Manteve-se silenciosa, quase sem se mexer, analisando a cidade. Do décimo quinto andar em que estávamos, o mundo lá embaixo não era nada. Para os transeuntes desavisados, nosso pequeno apartamento no centro era uma luzinha em meio a um milhão de luzinhas.

– Cair do décimo quinto andar deve ser uma morte e tanto – ela comentou de repente, quase que despretensiosa, e eu segurei minha vontade de bufar. Fiz um som qualquer com a boca meio fechada, meio aberta, e tentei me concentrar na tela do computador e no texto que eu espero que um dia se transforme em um livro.

Eu sempre quis viver da minha escrita. Tenho em mim aquele tesão literário que teve todo escritor que morreu de fome. Tenho fome de letrinhas, de universos, de distopias. Alice é minha protagonista, dentro e fora do papel, e são noites como essa que me fazem lembrar da razão pela qual eu a elegi como personagem principal do meu livro. A heroína dos olhos moles, dos cabelos encaracolados, da pele queimada de sol. A jovem cigana da boca rachada, dos braços roliços, da cintura de vespa. Alice não é só bonita, ela é avassaladoramente encantadora. Algo ela tem. Não sei o que é. Nunca soube. Escrevo-a pra ver se descubro, entre os parágrafos, o que foi que me fez amá-la desse jeito.

– Cair do décimo andar é improvável, Alice – respondi então. – Dificilmente alguém desequilibra e cai dessa altura toda. A maioria das pessoas não consegue ficar na beirada da janela.

– Só quem gosta de sentir que vai morrer, né? – Ela perguntou e, devagarzinho, inclinou o corpo para fora. Virei devagarzinho, contemplando-a sem grandes emoções, sabendo que Alice, no final das contas, não faria nada. Ela ficou daquele jeito por alguns minutos e retornou para dentro, ainda naquela lentidão excruciante. – Você não achou, em momento nenhum, que eu ia pular?

Conheci Alice quando ela ia se matar. Eu estava a caminho de casa numa noite fria pra cacete e a vi lá, majestosa num vestido azul, chorando. Metade do corpo ia em direção ao mar, metade do corpo insistia em ficar do lado de cá da ponte. Puxei assunto, chamei sua atenção, fui xingado de todos os nomes possíveis – Alice tem a boca mais suja do estado -, mas não saí. Não arredei pé até vê-la sentada no chão, abraçada com os joelhos, suja de pó de cimento, poeira e maquiagem escorrida. Não arredei até que ela me deixasse abraçá-la e conhecê-la e de insistir para que me desse a chance de lhe comprar um café. Ela deu. Tomamos três copos. Ela riu de mim quando eu comecei a tremer e quando corri para vomitar no banheiro. Ela era forte pra cafeína, me disse. Tomava muito porque tinha que trabalhar por horas a fio e sabia que não aguentaria. Era melhor que cocaína, comentou. Não que eu já tenha cheirado, mas é que cocaína é tão caro. Esse é o tipo de comentário que você não espera ouvir de uma moça de cara de anjo de 20 anos de idade, mas é exatamente o tipo de comentário que Alice se diverte em fazer. Parece que tem uma cisma em constranger as pessoas.

– Não, Alice, não achei – falei, então, e ela abriu um sorriso largo. Riu. Emendou um cigarro no outro, apoiou a cabeça na parede e cantarolou uma música do Johnny Cash

Girei lentamente a cadeira, voltando para o meu protótipo de livro. Alice, que se tornou Sofia na literatura, enfrentava a terceira noite de insônia por medo de estar doente. Afagava os seios com as pontas dos dedos, nervosamente, acreditando estar com nódulos, com “algo terrível”, com “qualquer coisa que vai deixá-la no seu leito de morte”. Repetia “você deveria ter me deixado morrer quando teve chance”, agarrada com os lençóis, chorando sem parar. Minha heroína nunca teve nervos de aço.

– Quando você vai terminar esse livro? – Ela perguntou de repente e eu balancei a cabeça, sincero sobre a minha incerteza. Ela suspirou ruidosamente. – Três meses sem sair de casa, quase. Não te dá vontade de ver como a vida continuou sem você lá fora?

– Acho que não – comentei, fungando, já decidido a não lhe dar mais atenção.

Alice, eu quero terminar esse livro e fazer fortuna. Quero te tirar desse apartamento que não é bem um apartamento, mas uma sala de 30 metros quadrados que transformamos em morada. Nós merecemos mais do que revezar para ver quem pendura as roupas no varal essa semana. Nós merecemos mais do que camisetas que fedem a fritura porque a lavanderia e a cozinha são basicamente a mesma coisa e a ventilação é uma piada e a única janela tem tamanho suficiente para passar um suicida e nada mais. Eu quero te tirar dessa situação torta e mostrar que valeu a pena te agarrar pela saia e te puxar para longe das ondas famintas. É por você e é por mim. Alice, me entenda, não me vire a cara, pegue o casaco e saia de novo. Prometo que vai melhorar. Prometo.

Continua.

Tinha olhos fundos de quem não dormia bem e um corpo magro de quem não comia direito. Por cima dos ossinhos quase que expostos, uma bata comprida, cor de terra, puída pelo tempo. Certamente não fora comprada especialmente para ele – era grande demais para tal. As canelinhas finas apareciam pela fresta entre o fim da calça curta e o início das meias cor de creme, as quais se perdiam em tênis simples, envelhecidos, mas bem cuidados. Observava as pessoas que passavam de um lado para o outro com interesse e aquela fagulha de esperança comum a todos que mantêm a fé por questão de sobrevivência. Apertava as mãos juntas, passeava os dedos pela roupa, mexia no cabelo curtinho. Volta a meia alisava a fronte lisa, cansada, tão estranhamente idosa (e ele não devia ter mais de vinte e cinco). Em algum momento, por qualquer motivo que eu não sei, seus olhos cruzaram com os meus, que o olhavam atentamente. Sustentou o olhar por alguns segundos e abaixou a cabeça, tímido, consternado, envergonhado que eu o estivesse julgando por qualquer razão irracional. Mordi o lábio e fui em sua direção, silenciosa, sem saber bem porque ia. Mas fui.

Falou da irmã mais nova. Disse que ela era pequenininha, sorriu e os vincos da fronte quase fizeram sumir seus olhos tristes. Falou da irmã mais velha, mas não se deteve em detalhes sobre ela. Falou que não podia trabalhar. Afagou a garganta rapidamente e comentou que era tuberculoso, mas não conseguiu dissertar mais sobre. Mudou de assunto. Disse que ajudava a mãe do jeito que podia, que esperava por. Por. Comentou que já havia jantado, que tinha fé, que Deus havia de mandar ajuda. Assenti. Me agradeceu, mas não sei o motivo disso. Eu é que tinha que agradecer, pensei depois, voltando pra casa, testa colada no vidro gelado, salpicado de chuva. Me senti suja. Eu, nas minhas calças justas, nos meus sapatinhos limpos, presa num corpo que não é saudável, mas não me limita tanto assim. Eu, privilegiada e ingrata, ingrata, ingrata.

Conta ela que toda a dor que ela carrega nasceu de uma noite na praia que nunca mais se repetiu. Uma noite de lua gorda, de ondas mansas, de silêncio pós-segredo-desestruturador. Ela conta, mas eu não acredito. Nunca a havia visto minimamente feliz em qualquer momento antes dessa noite da qual também sei (lá estive, de longe eu vi) e acho que é só mais uma das mil desculpas que ela inventa para não assumir que o pranto que espalha deriva dela inteira, das paranóias que a acompanham, daquelas coisas que engasgaram feio no caminho entre as cordas vocais e o mundo para além dela. Ela me conta de dias que não acho que aconteceram, mas não lhe digo nada. Observo. Afago seus cabelos ralos. Digo que ela vai ficar bem. Ela me abraça com olhos de névoa, tem aquela expressão que eu amo e nunca consegui decifrar bem. Como ela dói.