100 dias para viver

Dia 5. 

O mais difícil não é aceitar que você vai morrer.

O mais difícil é fazer os seus amigos aceitarem que você vai morrer e que os ama, mas não quer passar os últimos dias em cima de uma cama, babando medicação e causando estresse, lágrimas e arrependimentos. Sim, eu entendo as conseqüências dos meus desejos. Eu sei exatamente o que eu estou fazendo. Não quero que ninguém me veja quando eu estiver definhando e vomitando de dor – que tipo de respeito é esse? Que lembrem de mim rindo, contando piadas até às três da manhã, dando vexame nas festas de família. Que lembrem de mim vivo e feliz, não semi-morto e esperando a luz me arrebatar.

Estou morrendo desde que nasci, mesmo, eu digo, mas ninguém me ouve. Gente, entendam, só estou antecipando o que aconteceria qualquer dia desses. Eu podia morrer atravessando a rua. Eu podia morrer engasgado com alguma coisa. Eu podia ter um enfarto fulminante e apagar sozinho no banheiro. A gente nunca sabe quando vai morrer, então não aproveita o bastante. Vendo por esse lado, olha, eu não te pareço um privilegiado?

Depois de lágrimas e lágrimas, estratégias de convencimento mirabolantes e boas doses maravilhosas de codeína, entrei num trem com uma mala e quatro anos de economias que nunca virariam uma casa. Observei o caminho e percebi, pela primeira vez, o quanto ele era bonito. Sorri. Noventa e tantos dias, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos e eu queria tudo o que eu pudesse alcançar.

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