Sobre tudo o que eu amei

Nem tudo é claro para mim hoje. Na verdade, perigando destilar uma insensibilidade tocante, devo dizer que a maioria das coisas parece um grande borrão.

Não sei bem quando foi que isso começou; sei que hoje, quieta e olhando a chuva cair, eu notei que não me lembro mais do seu rosto. E eu fiquei chocada porque tentei lembrar e não consegui. Não lembro do formato dos meus olhos; sei que eram puxados e doíam como o inferno, mas é só. Não consigo desenhar seus traços sem substitui-los pelos traços de outras pessoas que vieram depois de você. O que me sobrou do seu corpo é a certeza de que eu não o vi bem o bastante.

Penso nos seus lábios grossos e enxergo-os perigosamente próximos, mas mesmo eles não me parecem diferentes de quaisquer outros lábios.

(Beijo outras bocas idealizando a sua, mesmo nem sabendo mais como ela é).