Sobre como os quadris falam

Para ela.

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Emily deixou que os dedos passeassem pelas pernas brancas bem devagar, aventurando-os por debaixo da saia volumosa pouco depois. Sorriu um sorriso emoldurado de vermelho e prendeu as bordas da saia na cinta-liga, oferecendo as pernas.

– Mas me fale de você – pediu o homem que estava diante dela, mão erguida em sua direção, olhos crescidos nas canelas grossas. – Me conte tudo. Quem é você, de onde vem esse rosto? Conte-me da sua vida, da sua história.

– Quem eu sou, essa é uma boa pergunta – ela deslizou para perto. Afastou os joelhos dele e cravou o salto no pequeno espaço que separava as suas coxas. Ele se sobressaltou, mas não ousou fugir dela. – Depende do quanto você me pagar. Posso ser muita coisa. O rosto, era isso? O rosto é só um acidente. Não é mérito. Tive sorte.

Ele concordou porque, oras, como não concordar? Ela tinha olhos pequenos e cílios que pareciam prestes a roçar nas sobrancelhas. Tinha uma boca bem feita, um nariz até que meio fora de proporção e cabelos que escorriam pelos lados da face como se tivessem sido desenhados. Era exótica. Exalava sexo. Tinha quadris que falavam. Era incontestável.

– Você não é daqui – ele concluiu enquanto traçava a sua panturrilha. – Seu sotaque é diferente, mesmo que você tente disfarçar. Fale-me de você.

– Convença-me – ela fez troça e ele, rapidamente, enfiou uma nota gorda em sua meia alta. Ela lambeu os lábios e levou as mãos pequenas para trás das costas. – Toda história tem mil versões. Qual você quer saber primeiro?

– A verdadeira.

– Nunca é assim tão fácil, não é mesmo? – Ela piscou enquanto soltava os laços que prendiam seu espartilho. Não parecia ofendida. – Você vem até mim, invade o meu quarto, me oferece umas migalhas e pede por uma vida que não lhe pertence. Quanta audácia.

– Abaixe aqui. E vire – ela obedeceu. Afastou as mãos e permitiu que ele a ajudasse em sua tarefa. – Eu só quero saber o que te fez ir embora de seja lá o lugar de onde você veio. Ninguém vem parar num puteiro quando tem outras opções.

– Eu não faço programa – ela falou, calmamente. Engatinhou para longe dele, subindo devagarzinho, permitindo que ele a observasse. O espartilho caiu ruidosamente e algumas contas rolaram pelo chão, mas ela não pareceu preocupada com isso. – Pobre menina do interior procura afeto num clube lotado, se fode e decide mexer com o coração alheio para se sentir mais interessante.

– Próxima.

– Pobre menina rica, cheia de criados e com uma vida sexual de dar inveja, decide viver por si só e vai para longe só para poder tirar a roupa.

– Próxima.

– Vagabunda sem coração que destrói homens.

– Próxima.

– E mulheres também.

Ele gargalhou, acendendo um cigarro. Ofereceu um a ela, que aceitou. Tinha os seios desnudos, mas parecia completamente despreocupada. Controlada. Controladora.

– Quando descobriu que sabia dançar?

– Eu nunca descobri isso; quem foi que lhe contou algo tão estúpido? – Ela movimentou o corpo, deixou que a cintura fina quase roçasse no rosto dele.

– Você quer me seduzir? – Ele perguntou e ela ergueu uma das sobrancelhas. – Você está me tocando. As meninas não tocam a menos que queiram algo em troca.

– E eu quero algo em troca – ela falou, bastante serena. – Use a sua boca adorável menos para elogios e mais para negócios. Notas fazem bem. Gorjetas excitam. Um homem só me interessa quando me dá dinheiro o suficiente para não ver muitos homens durante a noite.

– Você é sincera – ele deixou que a nota roçasse no abdômen dela antes de enfiá-la no cós da saia. – Ou mente pra cacete.

– Escolha a versão que mais lhe apetece, bonitão – ela riu, deslizando para longe. – Ouve essa música? Eu gosto muito. Ouvia muito quando era mais nova.

– Quando era um bebê? É impossível que você seja muito mais nova do que eu acho que você é.

– Eu tinha quarenta e dois aos doze anos – ela disse, mexendo nos cabelos negros.

– E quantos anos você tem hoje?

– Idade suficiente – ela desabotoou a saia, deixando que ela escorregasse aos poucos. Lançou-a para longe da mesa e ajoelhou-se. – E o que um lindo homem de meia idade faz aqui hoje?

– Acha mesmo que eu sou lindo?

– Ah, meu Deus, um inseguro – ela riu. – Bonitinho. Como vocês no café da manhã. Gosta das minhas pernas?

– Gosto.

– Entre para o time – ela deslizou, sentando-se de uma forma que enfatizava a sua quase completa nudez. – Em qual história você acredita?

– Vagabunda destruidora de homens e mulheres é menos provável do que menininha do interior – ele murmurou, esticando-se para tocar em sua perna. Ela permitiu. – Por que você veio para cá?

– Meu bem – ela afagou o rosto dele e deixou que a mão deslizasse para o peito longo depois. Enfiou os dedos por dentro do paletó e alcançou sua carteira. Ele não se moveu. – Andrei, bonito. Andrei, meu querido, não me pergunte coisas que eu não quero dizer. Pergunte-me se já tive um cliente tão bom quanto você.

– Você já teve algum cliente tão bom quanto eu?

– Já. Mas nenhum tão divertido.

– Por quê?

– Porque você finge que se importa com a vadia que você alugou para tirar a roupa para você – ela deu os ombros. – Não me ofendo. Vou levar o seu dinheiro enquanto você acha que leva a minha dignidade. Bom proveito. Conte aos seus amigos que a puta tinha coxas incríveis e que você a colocou no lugar dela enterrando notas de cem em sua roupa de baixo. Sinta-se orgulhoso.

– E essas palavras, de onde elas vêm?

– De dentro.

– E o seu rosto transfigurado?

– Da vida – ela se levantou.

– Por que você vai sair?

– Seu tempo acabou.

– E se eu te der mais notas de cem?

Ela gargalhou.

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